Trilogia das Cores: A Liberdade é Azul (por Peter P. Douglas)

“A Liberdade é Azul” (Trois Couleurs: Bleu, 1993), primeiro filme da “Trilogia das Cores” do diretor polonês de Krzysztof Kieślowski, acompanha o esforço de Julie (Juliette Binoche) para viver sem vínculos. Sem família, sem amigos, sem trabalho, sem memória. Ela tenta existir como presença neutra no mundo, sem se conectar a ninguém. O fracasso dessa tentativa é justamente o ponto: Kieślowski insiste que ninguém é ilha, e que a interconexão humana é inevitável.

Julie perde o marido — um compositor famoso — e a filha em um acidente de carro. Depois disso, tenta apagar tudo: vende a casa, doa os pertences, destrói as composições inacabadas do marido e se muda para Paris. O filme é sobre o interior dela, não sobre ações externas. Suas interações são mínimas, sempre marcadas pela recusa ao contato. Quando o advogado a questiona se pode perguntar por que ela quer vender a propriedade, lhe é respondido “Não” com um sorriso que revela o prazer em cortar laços. É a “liberdade”. Liberdade das demandas alheias, mas não liberdade para nada além de solidão.

A memória, porém, não obedece. Kieślowski usa um recurso simples e eficaz: quando uma lembrança invade Julie, ouvimos acordes da composição do marido e a tela escurece por alguns segundos. Não vemos o que ela lembra — só sentimos o impacto. A memória persiste, mesmo quando tentamos expulsá-la.

O som é central. Um músico de rua toca a composição inacabada do marido, reforçando a ideia de simultaneidade de pensamentos em lugares distintos. O acidente inicial é ouvido antes de ser visto. Kieślowski usa o som como ferramenta narrativa, não como acessório.

Binoche entrega uma atuação contida. Julie tenta reprimir qualquer impulso emocional, e o conflito interno aparece em cada gesto. Ela não consegue se livrar de tudo: mantém, por exemplo, o móbile azul da filha. Rostos novos e antigos entram em sua vida e a afetam, mesmo quando ela tenta resistir.

Entre esses rostos estão Olivier (Benoît Régent), compositor que ela afasta depois de um breve envolvimento; Lucille (Charlotte Véry), vizinha que trabalha em um clube de sexo; Antoine (Yann Trégouët), que testemunhou o acidente; e Sandrine (Florence Pernel), amante do marido. No final, quando Julie abandona a tentativa de isolamento, Kieślowski cria uma “viagem” circular que reúne todos esses personagens. Cada um em sua esfera, mas todos conectados — com Julie no centro. A ideia é clara: qualquer pessoa poderia ocupar esse centro em outro conjunto de relações.

A “Trilogia das Cores” se baseia nos ideais franceses — liberdade, igualdade, fraternidade — representados pelas cores da bandeira revolucionária francesa. Esta primeira parte da trilogia explora a liberdade no campo psicológico. A liberdade que Julie busca vira prisão. O azul, cor da frieza e da melancolia, domina sua vida. Quando ela devora um pirulito azul que lembra a filha, vemos o desespero de tentar consumir o passado para destruí-lo. Kieślowski mostra que isso é inútil. Estamos todos ligados, e não há como desfazer completamente essas ligações.

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