Eu Vi o Brilho da Tv (por Peter P. Douglas)

O tipo mais difícil de filme para resenhar é aquele que vive quase inteiramente de subtexto — aquele território nebuloso onde nada é dito, tudo é insinuado e você passa metade da sessão pensando “será que era pra eu entender isso?”. E fica ainda mais complicado quando o tema principal é uma experiência que você não viveu, mas que o filme quer que você sinta na pele. Empatia é poderosa, cinema é ótimo nisso, mas até empatia tem limite. Dito isso, vamos falar de “Eu Vi o Brilho da TV” (I Saw The TV Glow, 2024) de Jane Schoenbrun — um filme que é praticamente um poema visual com neon, angústia e TV dos anos 90.

Em 1996, Owen (Justice Smith), um adolescente solitário com energia de “ninguém senta comigo no recreio”, encontra Maddy (Brigette Lundy-Paine), igualmente solitária, igualmente estranha, igualmente perfeita para virar amiga de série indie. Os dois se conectam por causa de “The Pink Opaque”, um programa adolescente sobre duas jovens lutando contra monstros. Nossos protagonistas preferem viver no mundo da série do que no próprio, o que, sinceramente, é compreensível. Mas antes do programa ser cancelado, Maddy desaparece. Oito anos depois, ela reaparece com uma teoria que faria até o Mulder levantar a sobrancelha.

O tema central do filme não é óbvio — é quase secreto, tipo senha de Wi-Fi escrita atrás do roteador. É sobre dois adolescentes que sentem que algo está errado com eles, que não pertencem ao próprio corpo, que talvez sejam personagens presos no mundo errado. Em outras palavras: uma metáfora sobre disforia de gênero, sobre viver em uma pele que não parece sua.

Schoenbrun transforma isso em cinema com uma estética que mistura terror, sonho e “o que exatamente está acontecendo aqui?”. Não é um filme de terror tradicional, mas tem aquela vibe Lynch de “algo está errado e eu não sei o quê”. O programa infantil perturbador, os colapsos quase oníricos, a sensação constante de desconforto — tudo serve para fazer você sentir fisicamente o que é querer sair da própria pele.

Se o filme fosse só essa metáfora, seria uma obra-prima. Mas aí ele tenta falar também sobre nostalgia, parasocialidade e como séries ruins parecem profundas quando você as assiste na adolescência. E… bom, aí a coisa desanda um pouco. A ideia é boa, mas parece que o filme começou a explorar e depois esqueceu no meio do caminho, tipo quando você abre 20 abas no navegador e não lembra mais o que estava procurando.

A série dentro do filme é divertida, sombria e exagerada — e Schoenbrun claramente se diverte deixando tudo cada vez mais absurdo — mas o comentário sobre millennials e suas obsessões televisivas fica meio… incompleto.

Agora, visualmente? Um espetáculo. Neon, atmosfera, rabiscos na tela, clima de sonho ruim — tudo lindo. Tem até uma sequência musical com Phoebe Bridgers e Sloppy Jane que grita “Twin Peaks vibes”, mas de um jeito bom.

Sobre o elenco: Justice Smith continua sendo Justice Smith — sempre um pouco afetado, sempre um pouco estranho, sempre parecendo que está prestes a pedir desculpas por existir. Funciona para o personagem, mas não impressiona. Já Brigette Lundy-Paine? Rouba o filme. Ela domina cada cena, cada gesto, cada silêncio. O monólogo final é tão bom que dá vontade de aplaudir sozinho no cinema.

No geral, “Eu Vi o Brilho da TV”, é um filme que respeitamos mais do que amamos. Se você o assistir como uma alegoria trans pura e simples, ele funciona lindamente. Mas quando tenta abraçar nostalgia, cultura pop e trauma televisivo ao mesmo tempo, perde um pouco da força. Ainda assim, a metáfora principal bem construída e a direção bonita, torna impossível não considerar assistí-lo pelo menos uma vez.

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