Resenha | Ressurreição, de Jason Mott

O livro de estreia do autor americano Jason Mott, “Ressurreição” (The Returned), publicado em 2013, é centrado no retorno de pessoas mortas ao mundo dos vivos e o impacto disso na vida cotidiana daqueles ao seu redor. Ganhou uma adaptação, chamada “Resurrection”, em forma de série televisa que durou duas temporadas (2014-2015).

Num belo dia de verão, o Agente Bellamy — funcionário do muito burocrático e nada preparado Departamento Internacional dos Retornados — aparece na porta de Harold e Lucille Hargrave trazendo… o filho deles. O detalhe? Jacob morreu afogado no aniversário de oito anos. Cinquenta anos atrás. Mas ali está ele, com a mesma carinha, a mesma idade, o mesmo tudo. É como se o tempo tivesse dito “não, obrigado”.

Lucille, claro, abraça o menino como se tivesse acabado de buscá-lo na escola. Harold, por outro lado, olha para a situação como quem tenta entender um boleto que chegou duplicado: confuso, desconfiado e com a sensação de que algo está muito errado. Afinal, foi ele quem encontrou o corpo do filho no rio. Como aquele garotinho poderia ser o mesmo?

E Jacob não é caso isolado. Pelo mundo inteiro, mortos estão reaparecendo exatamente como eram, criando uma mistura de alegria, pânico e crise existencial coletiva. É milagre? É apocalipse? É bug na Matrix? Ninguém sabe. Lucille prefere não pensar muito — ela está ocupada sendo feliz. Já o resto da cidade de Arcadia… digamos que não está lidando tão bem assim.

Com o aumento dos Retornados, o governo decide que a melhor solução é… claro, campos de detenção. Porque nada diz “estamos no controle” como trancar pessoas que já morreram uma vez. Os campos ficam lotados, o medo cresce, e a cidade começa a se dividir entre “nós” e “eles”, como se fosse uma briga de torcida organizada, só que com mortos-vivos pacíficos.

Quando Jacob é levado, Harold vai com ele — ainda tentando entender se está vivendo um milagre ou um pesadelo. Enquanto isso, Arcadia vira um barril de pólvora: famílias reencontram mortos queridos, segredos antigos voltam à tona, e até o pastor da cidade tem que lidar com seu primeiro amor retornado. A histeria cresce, o mundo surta e, de repente, a humanidade precisa decidir o que significa… bem, ser humano.

Esse livro me perseguiu por dias — no bom sentido. A ideia é irresistível: mortos voltando sem explicação, querendo apenas retomar seu lugar no mundo. Como não ler isso?

Harold e Lucille, já na casa dos setenta, recebem o filho de volta como se o tempo tivesse dado um nó. Harold tenta agir racionalmente, mas a cabeça dele vira um liquidificador de culpa, saudade e medo. Lucille, por outro lado, abraça Jacob como se fosse um presente atrasado do universo.

Mas o mundo não está pronto para essa nova realidade. O Escritório dos Retornados toma conta da cidade, transforma a escola em campo de detenção e começa a prender todo mundo que já morreu. Harold e Jacob acabam presos, Lucille tenta visitá-los, mas logo até isso é proibido. A cidade entra em ebulição, protestos surgem, e a tensão explode.

O livro é cheio de personagens complexos. Fred, por exemplo, é fácil de odiar… até você perceber que ele só está quebrado por dentro porque sua esposa não voltou. Bellamy parece bonzinho, mas toma decisões duvidosas. Harold é impossível de não amar. Lucille é uma força da natureza. E é através deles que Mott explora as grandes perguntas: — Quem são os retornados? — Por que voltaram? — O que querem? — E o que isso diz sobre nós? Algumas respostas vêm. Outras não. E tudo bem — parte da graça é ficar pensando nisso depois.

No geral, “Ressurreição” é inquietante, comovente e cheio de perguntas que você não consegue ignorar. Jason Mott mistura distopia, drama sulista e suspense existencial num livro que gruda na mente como chiclete no tênis. Me peguei a pensar em como eu reagiria se alguém que amo voltasse. Eu abraçaria? Eu fugiria? Eu chamaria o Bellamy? Difícil saber.

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