
“Bonde dos Artistas Pessimistas” escrito por Zana (Thaisa Zanardi) pode ser considerado menos um livro e mais um manifesto, funcionando, particularmente, como um espelho incômodo para quem vive a arte fora dos holofotes. Lembra bastante aquele amigo que aparece na sua casa sem avisar, abre a geladeira, pega sua última cerveja e ainda diz: “relaxa, é pro seu bem”.
A autora imprime em suas palavras a franqueza de quem já perdeu a paciência com o glamour da vida artística e decidiu contar como as coisas realmente funcionam — sem glitter, sem filtro e sem promessas de que “vai dar tudo certo se você acreditar”. Durante a leitura, o que se vê é a criação de um percurso em que a intenção não é consolar, mas dar nome ao que machuca. E assim, liberar essa dor.
O texto mistura lembranças, reflexões, referências filosóficas e um humor que parece ter sido temperado com café requentado e boleto atrasado. Não é um livro que tenta animar ninguém; é mais um “vem cá, senta aqui, vamos rir da nossa própria desgraça porque chorar dá dor de cabeça”.
A autora expõe a precariedade estrutural do artista independente, desmontando a fantasia do viver de luz natural, cafés conceituais e convites para exposições. Ela mostra o que existe por trás: algoritmo, comparação, burnout, ansiedade, e aquela sensação constante de que todo mundo está indo melhor que você — inclusive o sobrinho de oito anos que faz slime no TikTok.
A menção de que “a obrigação de produzir aliena a paixão de criar”, descreve o momento em que o artista percebe que virou funcionário do próprio Instagram. O pessimismo aqui não é derrota, mas método: uma forma de despir ilusões para recuperar algum tipo de verdade interna.
Ao narrar sua trajetória — da formação em Artes Visuais ao período de ascensão nas redes, seguido de exaustão e retorno ao trabalho fixo — Zana derruba a fantasia do “viver de arte” como destino natural de quem tem talento. Ela mostra como a validação digital é volátil, como o mercado é excludente e como a dependência do olhar alheio corrói a autonomia criativa.
A autora não se coloca como vítima, mas como alguém que aprendeu, a duras penas, que, às vezes, o que salva o artista não é a inspiração, e sim a estabilidade financeira (salário mensal, VR, plano de saúde, etc) que pode ser uma forma de obter liberdade artística.
Durante a leitura, a parte teórica ganha densidade quando articula conceitos filosóficos de Foucault, Agamben, Deleuze e Antonio Bispo. O que se traduz naquele momento em que o artista tenta explicar para a família em um almoço de domingo que arte é uma ferramenta que reorganiza modos de perceber e existir. Ou seja, Zana usa os autores citados para pensar a arte como algo que reorganiza a vida, não como um objeto para pendurar na parede e esperar curtidas.
Os capítulos sobre inveja, ego e elogio são um presente para qualquer artista que já sentiu vontade de jogar o celular pela janela depois de ver o sucesso alheio (ainda que muitos não admitam). A autora descreve tudo com humor e sinceridade, como quem diz: “sim, eu também passo por isso, e não, não é bonito”. A inveja aparece (de forma infantil e inevitável) como aquela visita indesejada que chega sem bater e ainda põe os pés no sofá.
Outro mérito do livro é a crítica ao narcisismo das redes e ao marketing digital como pirâmide emocional. A autora não demoniza a tecnologia, mas denuncia a lógica de escassez e competição que transforma artistas em pedintes digitais de engajamento. A analogia entre o artista e o mendigo — ambos pedindo atenção — é desconfortável, mas verdadeira. O texto não entrega atalhos (ela não tenta vender nenhum curso milagroso para “crescer organicamente) pois, visa convidar o leitor a repensar o que significa “dar certo”.
Não se pode esquecer que o livro também tem momentos de ternura — do tipo que aparece quando você encontra um meme que te entende melhor do que sua família inteira. Zana fala do prazer de criar, do coletivo, do encanto que ainda existe mesmo quando tudo parece desandar. Não é otimismo; é teimosia artística, que é quase a mesma coisa.
Se há algo a apontar, talvez seja o fato de que o livro se alonga mais do que deveria. Poderia ser mais conciso em alguns trechos, e a oscilação entre tom ensaístico e confessional às vezes cria pequenas quebras de ritmo. Mas, honestamente, artista falando de arte raramente sabe a hora de parar.
No fim, “Bonde dos Artistas Pessimistas” não é um guia e nem um manual de sobrevivência, mas sim um companheiro de estrada. É mais como aquele amigo que te manda áudio de cinco minutos dizendo verdades que você não queria ouvir, mas precisava. Dito isso, lembrem-se: aceitem o pessimismo como contrapartida da positividade tóxica, pois a arte deve continuar sendo um espaço de sonho e transformação pessoal, mesmo sem a garantia de retorno financeiro ou fama.
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