Cansei De Ser Nerd (por Peter P. Douglas)

Cansei De Ser Nerd (2026), longa-metragem nacional de comédia sci-fi, distribuído pela H2O Films, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 28 de maio de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 87 minutos de duração.

“Cansei de Ser Nerd” parece aquele tipo de filme que nasce de uma reunião onde alguém disse “e se a gente juntasse Jodorowsky, Dario Argento, Edgar Wright, Quentin Dupieux, Bruce Lee, Tarantino, Rowan Atkinson, Stranger Things e ainda colocasse um culto alienígena no meio?”. E, em vez de rir e ir embora, todo mundo resolveu levar a sério.

O resultado é uma comédia sci‑fi, com toques de romance, que abraça o absurdo com orgulho, e que coloca Fernando Caruso — finalmente como protagonista — no centro de uma espiral de caos nerd, trauma escolar e referências que vão do cult ao pop.

Aírton (Caruso), é aquele nerd clássico que nunca superou a escola, mas não por nostalgia: ele foi acusado do assassinato de sua colega Solange (Renata Canossa), a quem daria aulas de reforço. Preso por dez dias, viu seu futuro ser jogado fora, além de virar a piada da turma. Vinte anos depois, ainda morando com a mãe Dona Têca (Cissa Guimarães) e colecionando frustrações, ele decide voltar ao reencontro da turma de 2004, junto com o amigo inseparável Ulisses (Pedro Benevides) – que é quase seu padrasto – para provar sua inocência, reconquistar Juliana (Bia Guedes) – o amor de sua vida – e, detalhe pequeno, impedir um ritual assassino de um culto alienígena liderado por Charles (João Velho), seu ex-bully. Coisa leve!

O filme se passa quase inteiro dentro de um casarão em Santa Teresa no Rio de Janeiro, o que concede uma vibe de história concentrada, cheia de idas e vindas, personagens esquisitos e situações que parecem ter saído de um sonho febril. Gualter Pupo, estreando na direção de longas, usa tudo o que acumulou como diretor de arte para transformar o espaço num playground surreal. E dá para sentir que ele se divertiu: tem estética psicodélica, humor nonsense, ação estilizada, metalinguagem e um desfile de referências que só alguém muito nerd teria coragem de misturar.

Caruso, que sempre brilhou no humor físico e no timing cômico, finalmente ganha um papel que exige tudo isso e mais um pouco. Aírton é inseguro, paranoico, apaixonado, traumatizado e, ao mesmo tempo, absurdamente engraçado — e Caruso navega por tudo isso com uma naturalidade que faz o personagem funcionar mesmo quando o longa abraça o delírio total. O elenco ao redor ajuda a manter o ritmo. Todo mundo parece entender exatamente o tipo de loucura que o filme quer ser.

E tem algo curioso: apesar de toda a estética exagerada, o enredo fala sobre trauma, sobre amadurecer tarde, sobre tentar limpar o próprio nome e, principalmente, sobre o que acontece quando alguém que sempre foi ridicularizado finalmente decide se defender. Só que tudo isso embalado em piadas, referências e situações tão absurdas que só funcionam porque o filme assume sua identidade sem medo.

No geral, “Cansei de Ser Nerd” parece ser exatamente o que promete: uma comédia, romântica, sci‑fi que dá voz ao nerd que nunca teve chance de falar — e que, quando finalmente fala, solta tudo de uma vez. É estranho, exagerado, divertido e, acima de tudo, diferente. E isso já o coloca num lugar especial dentro do cinema nacional.

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