Mambembe (por Peter P. Douglas)

Mambembe (2024), longa-metragem documental nacional, produzido pela Roseira Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 14 de maio de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 99 minutos de duração.

“Mambembe” começou lá em 2010, quando o diretor Fabio Meira decidiu que seria uma ótima ideia viajar até uma cidadezinha do agreste pernambucano para escolher três mulheres de circo para seu filme. Tudo lindo, tudo poético… até a realidade bater na porta. Faltou dinheiro, faltou estrutura, faltou sorte — sobrou angústia. A produção parou por dez anos, o que, no tempo do cinema, equivale a umas três eras geológicas.

Mas Meira não desistiu. Ele acreditava no projeto com aquela mistura de ingenuidade e otimismo que só artistas e pessoas que montam móveis sem ler o manual possuem. Achou que gravaria tudo em quatro semanas, com orçamento próprio, e depois conseguiria financiamento fácil. A vida, claro, respondeu: “não, querido”. Foram anos de recusas — até dos editais que pareciam feitos sob medida para o filme.

Só em 2018 o dinheiro apareceu. E aí, claro, o filme já era outro. A história original — sobre um topógrafo errante inspirado no pai do diretor e seu encontro com três mulheres de um circo mambembe — virou um docudrama sobre encontros, reencontros e sobre como o tempo transforma tudo, inclusive o próprio filme.

Agora, “Mambembe” acompanha desde o processo de escalação do elenco em 2010 até o reencontro do cineasta com Índia Morena e Madona Show dez anos depois. O resultado é menos “um filme sendo feito” e mais “um filme tentando descobrir o que quer ser enquanto existe”. É quase um documentário em crise existencial — e nós assistimos de camarote.

Isso significa que suas fragilidades ficam bem expostas. O filme parece sempre em suspensão, como se estivesse dizendo: “calma, já vou decidir o que sou”. Para o público, a sensação é de acompanhar um projeto que muda de foco como quem muda de canal — perseguindo personagens, ideias e possibilidades, sempre acreditando que, em algum momento, encontrará sua forma definitiva.

Essa indecisão constante cobra seu preço. “Mambembe” quer ser muita coisa ao mesmo tempo, mas nem sempre consegue sintetizar suas ambições. Ainda assim, há mérito em mostrar o processo, em revelar as costuras, em deixar claro que cinema também é tentativa, erro, pausa, retorno e, às vezes, pura teimosia.

No fim, o filme é tão mambembe quanto seu título — e isso não é crítica, é constatação. Ele tropeça, levanta, muda de rumo, reencontra pessoas, se reinventa e segue adiante.

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