Resenha | Supergirl : Mulher do Amanhã (HQ)

Como alguém que sempre achou que só fazia sentido existir um superpoderoso DC no universo — o Superman, claro — eu estava perdendo um mundo inteiro de possibilidades. A graphic novel “Supergirl: Mulher do Amanhã”, de Tom King, Bilquis Evely e Matheus Lopes, publicada entre 2021 e 2022, em oito edições, veio para me dar um tapa metafórico na cara. É simplesmente uma das melhores que já li. Fiquei eufórico (o que já é meu estado natural quando o assunto envolve Krypton), fiquei impressionado com a arte, com a prosa, arrepiei, chorei, tudo ao mesmo tempo. Supergirl é inspiradora, luminosa, e uma verdadeira lanterna de esperança num universo que insiste em ser sombrio.

Por que Supergirl pareceu tão incrível? Primeiro: ela é complexa. Não é “a prima do Superman” e pronto. Ela viveu a destruição de Krypton — literalmente viu o planeta morrer três vezes — quando tinha só 14 anos. Carrega um mundo inteiro nas costas e, mesmo assim, segue em frente. Além disso, ao contrário do primo, ela fala palavrão como se fosse pontuação, o que é hilário. E, claro, ela acaba lutando muitas das batalhas dele, porque sempre tem alguém ressentido com o Superman que decide descontar nela.

Na história, Ruthye — uma garota que vive numa fazenda de pedras com os genitores e seis irmãos — testemunha o assassinato brutal de seu pai por Krem das Colinas Amarelas. O mesmo Krem que se junta aos Bandidos de Barbond, um grupo de guerreiros genocidas, porque ninguém ali tem hobbies saudáveis. Ruthye implora a uma Supergirl bêbada (sol vermelho, aniversário de 21 anos, você entende) que a ajude a perseguir Krem. Quando o vilão acerta Krypto com uma flecha envenenada, Supergirl entra no modo “vingança galáctica” e passa a perseguir Krem e os Bandidos de planeta em planeta.

O que torna Supergirl (e o Superman) tão incríveis é algo que Ruthye, já idosa, observa: “O poder dela não era de ação, mas de contenção, resistência e paixão.” Eles usam seus poderes para proteger os oprimidos e se controlam para permanecer entre eles. Outra frase maravilhosa: “Primeiro houve um problema. Depois, apareceu a Supergirl. E então tudo voltou à paz.” Ruthye narra tudo com humor, ingenuidade e comentários que fazem você rir no meio da tragédia.

Em certo capítulo, Supergirl finalmente alcança Krem, mas ele usa um orbe mágico — porque magia é outro calcanhar de Aquiles dos kryptonianos — e envia Supergirl e Ruthye para Barenton, um planeta com sol verde e monstros abomináveis, criado exclusivamente para matar o Superman. Ele sobreviveu 45 minutos lá. Agora Supergirl precisa sobreviver 10 horas até o sol se pôr. E ela faz isso. Porque ela é ela.

Ruthye, desesperada, reza para que o sol se ponha. Depois percebe algo fundamental: “Deuses distantes são bons para orações, mas quando os demônios se aproximam… é melhor confiar na força de vontade inabalável de uma boa mulher.” Supergirl, mesmo debilitada, protege Ruthye até o sol se pôr. E então elas voam para longe.

Um dos maiores acertos da graphic novel é que King só apresenta a história de origem da Supergirl no sexto livro. Normalmente isso viria no início, mas aqui é guardado como uma revelação emocional. Supergirl conta sua história para Ruthye caso morra. O painel mais arrebatador é o de seu pai, Zor‑El, construindo um foguete com o último pedaço de chumbo para salvá-la. Ela pergunta: “Por que eu?” Ele responde: “Você é minha filhinha. E eu vou te salvar.” É devastador. King tinha outra versão desse capítulo, mas os editores disseram “não, querido, tente de novo”. E ainda bem.

Ah, e Supergirl tem um cavalo superpoderoso chamado Cometa. Sim, um cavalo. Sim, superpoderoso. Sim, maravilhoso. Ele a salva de outra tentativa de Krem de usar magia. Na batalha final, Supergirl enfrenta os Bandidos de Barbond sozinha, mesmo depois de eles destruírem mundos inteiros. Ela quase perde porque eles têm uma bala de kryptonita. Mas Cometa — que era, na verdade, um homem amaldiçoado — voa para salvá-la e morre no processo. Ruthye observa que o que torna Supergirl e Superman tão especiais não é só o poder, mas a bondade que inspira lealdade feroz nos outros.

Enquanto isso, Ruthye enfrenta Krem. Ele a subestima — erro clássico — e ela o derruba. Mas não consegue matá-lo. Supergirl retorna e revela que a missão nunca foi sobre salvar Krypto. Ele estava bem. A missão era sobre ensinar Ruthye a distinguir o certo do errado. Supergirl, porém, duvida de si mesma e quase mata Krem. Ruthye a impede, mostrando que aprendeu a lição.

O livro termina com Ruthye e Supergirl, já idosas, libertando Krem da Zona Fantasma após 300 anos. Ele implora perdão. Ruthye dá uma bengalada nele e vai embora. Na versão ficcionalizada da história, ela exagera dizendo que Supergirl o matou — só para evitar represálias futuras.

Que minissérie! Que maneira de continuar minha jornada de leitura de 2026. Comprei “Supergirl: Mulher do Amanhã” para me preparar para o filme da Supergirl, que é baseado quase todo nessa HQ. Mas acabei me tornando fã da personagem. A prosa de King é profunda e emocionante, e Evely e Lopes entregam uma arte deslumbrante. Um deleite absoluto.

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