
“O Gênio do Crime”, escrito, em 1969, por João Carlos Marinho, é o primeiro livro da “Turma do Gordo”, que tem várias outras aventuras. Especificamente, este título é aquele tipo de história que começa com crianças desesperadas por figurinhas e termina com um anão falsificador planejando dissolver um menino em ácido.
João Carlos Marinho escreveu um livro infantil, mas com a energia narrativa de alguém que decidiu que limites são apenas sugestões. E o resultado é uma aventura tão absurda quanto divertida, cheia de planos mirabolantes, perseguições dignas de novela policial e um trio de protagonistas que resolvem crimes com a mesma naturalidade com que comem torradas.
A história gira em torno do maior patrimônio cultural brasileiro depois do futebol e da coxinha: álbuns de figurinhas. E não é qualquer figurinha, não — estamos falando de Pelé, Rivelino, Ivair, Paulo Borges… a seleção de ouro da época. Cada figurinha vinha com um nível de dificuldade digno de RPG: tinha a “fácil”, a “média” e a “se aparecer, compre uma raspadinha também porque hoje é seu dia de sorte”.
O prêmio para quem completasse o álbum? Camisetas e bolas de futebol. Ou seja, o equivalente infantil de ganhar um carro zero. A molecada corria para completar o álbum como se fosse Black Friday na Fábrica de Figurinhas “Escanteio”.
Mas aí entra Tomé, o dono da Escanteio e idealizador do álbum, que estava feliz da vida… até descobrir que cambistas no centro de São Paulo (sim, a trama é bem regional) começaram a vender réplicas perfeitas das figurinhas mais raras. Resultado: prejuízo, dívidas e dor de cabeça suficiente para virar personagem de novela das oito.
Desesperado, após quase ter sua fábrica destruida por clientes ensandecidos pelos prêmios, Tomé pede ajuda a Edmundo, um menino que entende a gravidade da situação (e provavelmente quer muito aquela bola de futebol). Edmundo convoca seus amigos Pituca e Bolacha — um trio que parece saído de um desenho animado — para descobrir onde fica a fábrica clandestina que está falsificando as figurinhas.
E aí começa a aventura: perseguições, enigmas, estratégias mirabolantes e, claro, a revelação de talentos ocultos de Bolacha, que até então parecia só o amigo engraçado, mas se mostra um verdadeiro Sherlock Holmes… ou quase.
Aliás, falando em Sherlock: em certo ponto, o gerente da fábrica Escanteio decide “profissionalizar” a investigação e contrata um detetive europeu pomposo, cheio de pose e com um selo de “nunca perdi um caso”. É tão caricato que parece ter saído direto de um livro de Conan Doyle. A disputa entre ele e Bolacha para ver quem resolve o caso primeiro é simplesmente hilária.
A obra tem humor de sobra — especialmente nas interações entre Edmundo, Pituca e Bolacha. Posso afirmar que, o único ponto que deve incomodar muitos leitores, diz respeito à algumas expressões (hoje não normalizadas) típicas da época em que o livro foi escrito. Nada que estrague a experiência, mas vale o aviso.
E sim, essa história virou filme em 1973: “O Detetive Bolacha Contra o Gênio do Crime”. É uma daquelas adaptações que o leitor ama porque é fiel ao livro — tão fiel que até as frases são praticamente as mesmas. O filme é simples, com aquele jeitão de cinema antigo, mas é uma viagem deliciosa para a São Paulo da época.
No geral, o livro “O Gênio do Crime” é um clássico brasileiro que mistura em sua escrita: aventura, sátira, absurdo e uma boa dose de criatividade infantil. O que torna impossível depois de lê-lo, não querer conhecer as outras histórias da “Turma do Gordo” — até porque, depois dessa, qualquer coisa pode acontecer.
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