O Detetive Bolacha Contra o Gênio do Crime, 1973 (por Peter P. Douglas)

“O Detetive Bolacha Contra o Gênio do Crime” é um longa-metragem nacional, de 1973, dirigido por Dito Teijido, que adapta fielmente o livro infantil “O Gênio do Crime”, escrito em 1969, por João Carlos Marinho.

A Trama acontece quando três garotos com tempo livre demais, um dono de fábrica desesperado e um detetive escocês com nome de senha de Wi‑Fi resolvem enfrentar uma quadrilha de falsificadores de figurinhas que opera como se fosse a CIA da Marginal Tietê em São Paulo. A história é cheia de reviravoltas e mostra crianças resolvendo crimes sérios porque adultos são claramente incapazes.

O filme começa mostrando os créditos iniciais sobre cenas de um pátio escolar. As crianças, lideradas por Edmundo (Fernando Uzeda), estão obcecadas em completar um álbum de figurinhas de futebol. Completá-lo significa receber prêmios. Contudo, a figurinha do jogador Rivelino, entre outras, é quase impossível de encontrar.

Quando Edmundo finalmente consegue preencher o álbum, resolve ir reinvindicar seu prêmio. E é ai que percebe uma multidão de crianças protestando em frente à fábrica de figurinhas “Escanteio” porque a entrega de prêmios foi suspensa. As crianças fazem o que qualquer grupo organizado faria: tentam invadir o prédio. Edmundo impede, o que já o coloca acima de 90% dos adultos da trama, e acaba virando o herói involuntário de Seu Tomé (Older Cazarré), o dono da fábrica.

Seu Tomé explica que existe uma fábrica clandestina falsificando figurinhas difíceis — aquelas que deveriam ser raras, mas estão aparecendo mais do que propaganda de sabão em pó. A polícia falhou, detetives falharam, e a solução óbvia é pedir ajuda a três meninos em período escolar.

Edmundo, Pituca (Antonio Cláudio) e Bolachão/Gordo (Arlindo Paulino) — este último um gênio estratégico que só pensa bem quando está mastigando — começam seguindo o cambista. O homem é tão bom em despistar que poderia dar workshop para fugitivos internacionais. Eles o seguem por ônibus, táxi, ladeira, e o cambista ainda arruma tempo para dar uma surra em Edmundo antes de fugir. Mas Bolachão, entre uma torrada e outra, tem a sacada que muda tudo: seguir o cambista “ao avesso”, ou seja, descobrir de onde ele vem, não para onde vai. É a primeira vez na história que preguiça e gula resultam em brilhantismo investigativo.

Depois de dias de perseguição digna de novela policial, eles descobrem onde o cambista mora. Mas aí aparece o gerente arrogante da fábrica, que contrata Mister John Smith Peter Tony (Osvaldo Tesser) — um detetive escocês que cura soluço dando tiro em copo d’água e que, apesar de se autoproclamar invicto, passa metade do livro sendo enganado por crianças. Mister John aceita competir com os meninos para ver quem descobre a fábrica clandestina primeiro, porque aparentemente ninguém ali tem noção de prioridade.

Para poder acompanhar mais de perto suas suspeitas, Bolachão convence Seu Tomé a matriculá-lo na escola do filho do cambista. Há cenas cômicas de Bolachão se passando por “Afonsinho”, tentando agir como uma criança mais nova, apesar de seu tamanho. Aliás, esse é um dos momentos mais incorretos do filme para o público que assistí-lo atualmente (junto com a tortura e hipnose por sanduíche).

A investigação continua com acampamento clandestino na beira do Tietê, cartas falsificadas para enganar pais e escola, vigilância noturna e Bolachão caindo em cima da tenda porque comeu demais. Até que, finalmente, após a ajuda de Berenice (Cristiane Heuer) – uma outra aluna – Bolachão encontra o contato secreto do cambista: um homem de mascára que copia listas de figurinhas observando, através de um binóculo, anotações de um aluno. Ele segue o homem, descobre a fábrica clandestina e, claro, é sequestrado — porque nenhum plano envolvendo crianças investigando criminosos termina bem — não sem antes conseguir fazer uma ligação rápida para Seu Tomé.

No cativeiro, Bolachão descobre que o chefe/Gênio do Crime é um anão (Luís Carlos Arutin) com talento para imitar vozes e gosto duvidoso para métodos de eliminação: ele planeja dissolver o menino em ácido, como se estivesse num episódio de “Breaking Bad” versão infantil. Mas Bolachão, tem outra ideia brilhante: alterar o verso das figurinhas para enviar um pedido de socorro. Ele monta o recado letra por letra, com dor na unha e tudo, e torce para que alguém compre a figurinha antes que ele vire espuma. Porém, a tiragem acaba não sendo distribuída para venda.

Por sorte, uma figurinha acaba vazando, mobilizando a polícia e fazendo com que, Mister John invada o cativeiro pelo teto como se fosse um super-herói escocês de meia-idade. A sequência final é um festival de luta, pancadaria, capangas voando (Atlas e Almeidinha), um anão derrotado e uma banheira de ácido que, felizmente, não recebe o protagonista. Os bandidos são presos e Bolachão vira celebridade. No final, Mister John admite que perdeu sua invencibilidade e parte no helicóptero refletindo sobre amizade.

O filme inteiro é um festival de absurdos deliciosos, personagens exagerados e planos mirabolantes que só funcionam porque o universo do livro opera na lógica do “por que não?”. É uma aventura que se passa em uma São Paulo que já não existe, onde o humor é constante, os personagens são carismáticos e o ritmo é tão acelerado que o público mal percebe o tempo passar e, principalmente, que estão acompanhando um enredo que envolve crime organizado, sequestro, investigação e ácido corrosivo.

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