O Gênio do Crime, 2026 (por Peter P. Douglas)

O Gênio do Crime (The Genius of Crime, 2026), longa-metragem nacional infantil, distribuído pela Paris Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 14 de maio de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 94 minutos de duração.

A Nova adaptação cinematográfica (anterior se chamava: “O Detetive Bolacha Contra o Gênio do Crime, 1973) do livro, “O Gênio do Crime”, escrito em 1969, por João Carlos Marinho, tenta equilibrar três vontades ao mesmo tempo: agradar quem leu o livro nos anos 70, conversar com crianças de hoje e ainda dar aquela polida de produto televisivo que o diretor Lipe Binder trouxe da experiência em novelas (esse é seu primeiro longa). O resultado é um filme que tenta ser moderno, nostálgico e seguro — tudo ao mesmo tempo — e isso gera algumas escolhas curiosas… e porque não, duvidosas.

Mas primeiro, para quem não tem familiaridade com as aventuras da “Turma do Gordo” (esse seria o primeiro volume), vamos falar um pouco sobre a trama. Tudo começa quando Edmundo (Samuel Estevam) finalmente completa (o que gera recompensas) o álbum da Copa do Mundo de 2026 — um feito digno de estátua na praça — depois de conseguir a figurinha mais rara do universo: Vinícius Júnior brilhando mais que ouro 18k. Comemorando como se tivesse ganhado a Mega-Sena, ele e os amigos João (Francisco Galvão) e Pituca (Breno Kaneto) correm até a fábrica Escanteio para buscar o prêmio prometido: ingressos para assistir aos jogos da Copa (um upgrade e tanto).

Mas, claro, nada é tão simples. O que deveria ser só festa vira mistério nível Scooby-Doo quando eles descobrem que a figurinha rara está sendo falsificada. E não é falsificação meia-boca, não — é réplica perfeita, daquelas que até o próprio Vini Jr. ficaria na dúvida. Isso coloca a fábrica Escanteio, comandada pelo sempre carismático Seu Tomé (Ailton Graça), à beira da falência.

Indignados com o crime contra a pátria (porque falsificar figurinha é quase crime federal no coração de qualquer brasileiro), os jovens decidem investigar. E aí começa a aventura pelas ruas de São Paulo, com direito a becos suspeitos, pistas misteriosas e aquele clima nostálgico.

Para completar o time, surgem Berenice (Bella Alelaf) e Mr. Mistério (Marcos Veras), um detetive tão enigmático que parece ter sido contratado diretamente de um filme noir dos anos 40. Ele entra na história com pose, charme e um ar de “eu sei de coisas que vocês não sabem”, competindo com a turma para desvendar o esquema criminoso.

Uma das grandes mudanças da nova adaptação já aparece logo de cara: Berenice entra desde o início, como se sempre tivesse sido parte do “quarteto”. No livro, ela surge mais tarde e por menos tempo, mas aqui a produção decidiu que não dava para deixá‑la esperando no banco de reservas. A justificativa do diretor foi clara: ela é importante na série de livros inteira, então melhor colocá‑la logo no jogo. Funciona dentro da proposta, mas altera bastante o ritmo original.

A cronologia vira uma espécie de elástico. O filme pula, volta, reorganiza, encaixa e rearranja eventos sem muita cerimônia. Quem conhece o livro percebe rápido que a ordem foi mexida várias vezes, e não por acidente. A intenção é atualizar a história, mas isso cria um clima de “versão remixada”, onde tudo parece familiar, mas nunca exatamente igual.

O visual tem aquele brilho característico de produções do Grupo Globo. Tudo é limpo, organizado, colorido e com cara de que passou por uma boa sessão de maquiagem digital. Isso dá ao filme um ar de produto televisivo, o que pode agradar parte do público, mas também tira um pouco da textura mais urbana e caótica que o livro e o filme de 1973 tinham.

As cenas politicamente incorretas foram retiradas sem dó. Nada de piadas que envelheceram mal, nada de termos que hoje seriam problemáticos. O diretor deixa claro que o mundo mudou e que certas coisas não cabem mais. É uma escolha compreensível, mas que também suaviza um pouco o espírito mais irreverente da obra original.

Curiosamente, apesar de toda a tecnologia presente, os protagonistas parecem perder metade da inteligência quando um celular entra em cena. É como se o roteiro dissesse: “eles são brilhantes… até abrir o aplicativo errado”. Isso cria situações meio forçadas, especialmente porque o livro sempre tratou os tratou como estrategistas natos.

A maior mudança está no vilão. No livro e no filme de 1973, o chefe da quadrilha era um anão desconhecido, sem passado dramático. Agora, o filme cria um antagonista com trauma, história e função de gerar reviravolta. Só que, ironicamente, não há confronto real. O personagem existe para dar peso, mas não chega a cumprir o papel com impacto.

O núcleo infantil é o ponto mais forte. As crianças têm química, parecem realmente se divertir e entregam atuações espontâneas. Dá para sentir que o set foi leve e que eles estavam curtindo o processo. Isso ajuda muito, porque a história depende do carisma deles para funcionar.

O diretor, vindo de novelas e séries, encara o filme como um exercício de adaptação para um público que mudou completamente desde 1969. Em coletiva, ele fala bastante sobre conectar a criança que foi com as crianças de hoje, e isso aparece nas escolhas de linguagem, no humor mais suave e na tentativa de equilibrar nostalgia com modernidade.

A homenagem ao autor (João Carlos Marinho), nomeando o protagonista como João é simpática, mesmo que não faça parte do livro, uma vez que Bolachão/Gordo nunca recebeu um nome oficial em nenhuma das obras originais.

A produção também tenta criar pontes entre gerações usando objetos antigos — VHS, figurinos retrô, detalhes de direção de arte que piscam para o passado. É uma forma de fazer pais e filhos conversarem, segundo o próprio diretor. Funciona como charme, mesmo que às vezes pareça colocado ali só para agradar adultos nostálgicos.

O orçamento de 13 milhões deixa claro que a intenção era entregar algo grande, com acabamento caprichado e cara de cinema para toda a família. E isso aparece na tela: tudo é organizado, limpo, pensado para ser acessível e seguro para qualquer faixa etária.

No geral, “O Gênio do Crime” é uma adaptação que abraça mudanças, suaviza arestas e tenta atualizar um clássico para 2026. Nem tudo funciona, algumas escolhas deixam a história mais engessada e outras criam soluções que não existiam no original. Mas há esforço, há carinho pelo material e há um elenco infantil que carrega boa parte da graça. É uma versão que conversa mais com o presente do que com o passado — e talvez essa seja justamente a intenção.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *