Resenha | Uma Escada Para o Céu, de John Boyne

Em 2019, o livro “Uma Escada para o Céu”, escrito por John Boyne, foi lançado, aqui no Brasil pela TAG Livros. E desde então, não foi disponibilizado por nenhuma outra editora. Finalmente, não pude mais adiar a leitura dessa obra… e meio que me arrependi… de não ter adiado mais.

Nosso protagonista, Maurice Swift começa a vida adulta como garçom em um hotel e tem a sorte de atender um autor famoso que o acolhe por conveniência. Maurice quer ser escritor, mas não tem ideias próprias. Escreve bem, mas não cria tramas. Com o mentor, aprende como o mercado funciona e encontra sua primeira história ao conviver com outros autores. O problema é simples: a trama não é dele. A partir daí, sua carreira inteira se sustenta em histórias roubadas que ele apresenta como originais.

A leitura não é agradável se você não tolera protagonistas repulsivos. Maurice é manipulador, egoísta e cruel. Não é o tipo de personagem “que você ama odiar”; é só alguém que torna a leitura desconfortável. A habilidade de Boyne em construir narrativa está lá, mas o livro depende de acompanhar Maurice de perto, e isso pode ser um obstáculo.

A estrutura em três partes, com interlúdios curtos, ajuda. Os interlúdios funcionam melhor porque afastam o leitor da presença tóxica de Maurice. O primeiro mostra outra perspectiva, mais distante. O segundo mostra Maurice criança, ainda sem poder, descobrindo sua própria falta de limites. Já as três partes principais acumulam comportamentos cada vez piores.

Sabendo que Maurice rouba tramas, fica claro desde o início qual história ele vai tomar. Na segunda parte, o padrão se repete. Na terceira, ele cai na própria armadilha, sem surpresa alguma. A ironia dramática mantém algum interesse: Maurice mente, manipula e engana pessoas que não percebem ou não conseguem reagir. O desfecho é satisfatório, mesmo sendo óbvio. O livro funciona como estudo de personagem, não como suspense. O problema é querer estudar Maurice.

Há pontos positivos. A visão sobre o mercado editorial é interessante, mesmo sendo ficcional e tendenciosa. Ver escritores, editores e agentes interagindo dentro de um ambiente competitivo e mesquinho é divertido. Quem gosta de literatura reconhece referências e aprecia o cenário, mesmo que retratado como corrupto.

No geral, a leitura teve altos e baixos. O livro tem méritos, mas Maurice torna tudo mais difícil. Ainda assim, vale continuar explorando as histórias escritas por John Boyne.

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