
Em Portugal, durante 48 anos, prosperou aquela que seria reconhecida como a ditadura mais longa da história europeia do século XX, abrangendo três regimes interligados (de 1926 à 1974). Começou com a Ditadura Militar (1926 a 1933), passou pelo Estado Novo, chefiado por Antônio de Oliveira Salazar (1933 à 1968) e terminou com a ditadura de Marcelo Caetano, derrubada pela Revolução dos Cravos (1974).
O livro “Salazar e o Poder – A Arte de Saber Durar”, do historiador Fernando Rosas, publicado em 2013, é um ensaio, em prosa fluída, que tenta responder a seguinte pergunta: como o fascismo lusitano persistiu durante tanto tempo?
E para responder a essa pergunta, o autor pega o ditador português Salazar, o coloca sob luz forte, gira a cadeira e diz: “vamos conversar sobre como você conseguiu ficar tanto tempo mandando em tudo”.
Este livro se divide em três partes, mas poderia muito bem ser descrito como um manual de instruções do próprio Salazar: 1) o que ele realmente pensava sobre política (spoiler: não era nada elevado ou místico, só autoritarismo bem arrumadinho), 2) como se instalou no poder e, claro, 3) como conseguiu ficar lá agarrado durante décadas sem que ninguém o arrancasse.
O autor não está interessado em fazer retrato simpático nem em fingir que Salazar era apenas um senhor tímido que gostava de economia e pão com manteiga. Ele desmonta o mito com a precisão de quem conhece cada tijolo do Estado Novo e sabe exatamente onde ir para mostrar que a longevidade do regime não foi coincidência, mas resultado de cálculo, conveniência e uma boa dose de frieza política.
Aos portugueses, Salazar reservava o famoso “viver habitualmente”: nada de ambições materiais ou culturais, muito respeito às autoridades e uma fé quase religiosa em quem manda. O lema era simples: “eles é que sabem”.
Para Salazar, a política “de verdade” era só a governança técnica — aquela que, convenientemente, não precisava de cidadãos opinando, nem de parlamento se metendo. A primeira parte do livro mostra como ele foi cimentando essa visão até confundir sua própria estratégia com a da União Nacional, criando o alicerce do Estado Novo. Implantou uma “ditadura de chefe de governo”, mas, como bom patriarca da moralidade seletiva, inaugurou também o hábito de premiar os seus fiéis com cargos gordos e negócios bem posicionados. Meritocracia salazarista: só para os amigos.
O autor apresenta Salazar como alguém que entendeu cedo que poder não se mantém com carisma, mas com controle — e controle em todas as direções. Rosas mostra como o ditador montou uma máquina estatal que funcionava como relógio suíço, só que sem a parte elegante: polícia política, censura, vigilância, propaganda e uma administração pública treinada para obedecer antes de pensar. Nada de improviso; tudo meticulosamente ajustado para garantir que o chefe continuasse sentado na cadeira enquanto o país andava a passo de tartaruga.
Os aparelhos ideológicos do regime — família, escola, trabalho, lazer — funcionavam como uma máquina de lavagem cerebral contínua, moldando o “homem novo” salazarista: obediente, resignado, dedicado à família e à missão de servir. Um cidadão ideal para quem governa sem querer ser contrariado.
O livro também desmonta aquela velha história de que Salazar era um tecnocrata neutro, quase um monge da política. Rosas deixa claro que essa imagem foi construída com cuidado, como se o ditador tivesse contratado um assessor de marketing para parecer menos autoritário do que realmente era. A tal “arte de durar” não veio de virtudes misteriosas, mas de uma combinação eficiente de repressão, alianças estratégicas e uma habilidade quase cirúrgica de evitar conflitos internos que pudessem ameaçar sua posição.
O truque era fazer concessões formais à oposição enquanto se montava uma estratégia para neutralizá-la. Socialmente, dava-se o mínimo necessário para evitar explosões. Modernizava-se o Estado só o suficiente para mantê-lo funcionando, sempre com a fachada de regime “moral e legal”. A brandura era só fachada: quando o regime se sentia ameaçado, a mão pesada aparecia sem cerimônia — especialmente contra comunistas, seus inimigos favoritos.
Outro ponto forte é a forma como o autor contextualiza o regime dentro da história europeia do século XX. Rosas não trata Portugal como ilha isolada; ele mostra como Salazar navegou entre fascismos, democracias frágeis e guerras coloniais com a elegância de quem tenta atravessar um campo minado usando chinelos. O ditador sabia quando se aproximar, quando recuar e quando fingir que não estava vendo nada — tudo para manter o país sob sua batuta e evitar qualquer mudança que pudesse colocar seu reinado em risco.
O livro também aborda o desgaste do regime, especialmente quando as guerras coloniais começam a cobrar seu preço. Rosas mostra como Salazar tentou manter o império português com a teimosia de quem insiste em usar um aparelho eletrônico quebrado só porque “ainda pode funcionar”. A incapacidade de lidar com a realidade internacional acabou corroendo a estrutura que ele levou décadas para montar, e o autor descreve esse processo com clareza, sem dourar nada.
No fim, “Salazar e o Poder – A Arte de Saber Durar” é uma análise que desmonta o ditador peça por peça, mostrando que sua longevidade não foi fruto de talento sobrenatural, mas de uma combinação de repressão, cálculo político e uma habilidade quase obsessiva de evitar qualquer risco. Rosas entrega um estudo sólido, crítico e bem fundamentado, que ajuda a entender como um regime autoritário pode durar tanto tempo quando encontra o ambiente perfeito para prosperar.
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