Resenha | Reflexo Distorcido de Fernando Luiz

O livro “Reflexo Distorcido”, escrito por Fernando Luiz e publicado pela Skull Editora, é aquele tipo de thriller que chega sorrateiro, com cara de “mais um drama familiar”, e de repente você percebe que está preso num condomínio de gente rica onde cada parente tem potencial para virar caso de polícia.

Um retorno… após um desaparecimento de sete anos. A família Alcântara Machado se vê em meio a um caos doméstico: Allan e Heitor são gêmeos que parecem ter sido separados na maternidade por incompatibilidade moral; André, um filho bastardo completa o bingo genealógico; e temos o patriarca que, ao reunir todo mundo para decidir o futuro dos negócios, acaba levando um tiro de agradecimento, transformando a mansão em palco de investigação. Nada como um ambiente corporativo e familiar saudável.

O pai morre, a polícia chega, e o que era reunião de família vira caça ao assassino. A cada página, um segredo novo aparece, como se o autor tivesse decidido que previsibilidade é coisa de amador. Não dá pra comentar muito para não estragar a surpresa, o que neste caso é um bom sinal, pois, quando alguém diz “não posso contar”, geralmente é porque o texto reserva alguma coisa que vale a pena descobrir sozinho.

O autor não teve medo de povoar o livro. É gente entrando e saindo como se fosse rodoviária em feriado prolongado. Tem personagem para todos os gostos — Allan, o gêmeo “bonzinho”; Heitor, o gêmeo que parece ter saído de um concurso de vilania; além de um elenco que cresce ainda mais depois de um salto temporal de 18 anos no meio da história — porque, aparentemente, a família não tinha problemas suficientes no presente e precisava de mais um lote de gente para complicar tudo. Cada novo personagem chega com potencial para virar suspeito, cúmplice ou testemunha que não sabe nada, mas fala como se soubesse.

Os cenários também recebem atenção especial. Ruas, praias, mansão, empresa — tudo descrito com detalhes suficientes para o leitor sentir que está andando pelos mesmos lugares, mas sem aquela sensação de que o autor está tentando ganhar por número de parágrafos. A promessa é de imersão sem bocejo, pois quem quer saber a cor exata da cortina da sala antes de descobrir quem matou quem?

No geral, “Reflexo Distorcido” abraça o espírito da leitura investigativa com gosto: família rica cheia de problemas, morte suspeita, personagens que parecem ter saído de novela das oito e reviravoltas suficientes para manter o leitor acordado até tarde. Além de uma quantidade de fofoca digna de grupo de WhatsApp que nunca deveria ter sido criado. É o tipo de livro que faz o leitor pensar: “ainda bem que minha família não tem herança para brigar, porque se tivesse dinheiro envolvido, já tinha dado polícia também”.

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