A Odisseia, 2026 (por Peter P. Douglas)

A Odisseia (The Odyssey, 2026), longa-metragem estadunidense de drama histórico, distribuído pela Universal Pictures, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 16 de julho de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 172 minutos de duração.

“A Odisseia”, de Christopher Nolan, é o truque de mágica cinematográfico definitivo: um épico gigantesco que, ao mesmo tempo, parece um filme íntimo feito à mão. É a adaptação que entrega escala titânica sem perder o foco humano — algo que só Nolan consegue fazer enquanto reorganiza o tempo como se fosse um cubo mágico.

Ao adotar uma linha do tempo não cronológica — homenageando Homero e, claro, exibindo seu fetiche por narrativas fragmentadas — Nolan transforma a jornada de Odisseu numa luta interna para reconciliar trauma de guerra e identidade. O Odisseu de Matt Damon não é o herói imaculado dos livros escolares; é um comandante quebrado, consumido pela culpa, cuja maior batalha não é contra monstros, mas contra si mesmo.

Essa base emocional se espalha pelo elenco. A Penélope de Anne Hathaway ganha protagonismo real (nada de figura passiva tecendo tapetes eternos). Tom Holland, como Telêmaco, faz da dinâmica pai‑filho um dos pontos altos do filme. Robert Pattinson surge como Antínoo, trazendo uma vilania arrepiante nas sequências de Ítaca. Elliot Page, como Sinon, aparece pouco, mas entrega duas cenas que atravessam o filme inteiro.

Os monstros beiram o terror. Polifemo é animatrônico, marionete, sombra — e a sequência parece saída de um filme de horror claustrofóbico. Circe abraça o horror corporal, transformando homens em animais de forma angustiante. Cila e Caríbdis são sugeridos mais do que mostrados, reforçando que o medo, às vezes, é mais poderoso quando está fora de quadro.

Tecnicamente, o filme também é um monstro. A trilha de Ludwig Göransson é um banquete: grandiosa quando precisa ser mítica, delicada quando precisa ser humana. Filmado inteiramente em IMAX 70mm, é uma aula de cinematografia. Hoyte van Hoytema move aquelas câmeras gigantes com fluidez absurda. Os defeitos são pequenos, mas existem (iluminação, uso de termos modernos).

É exatamente o tipo de filme que o público diz querer quando reclama da falta de produções ambiciosas: grandioso e pessoal, técnico e emocional, clássico e moderno. Depois de “Oppenheimer” (2023), Nolan não descansou — ele dobrou a aposta e entregou algo ainda mais ousado.

“A Odisseia” é um filme que merece ser visto na maior tela possível. IMAX, Dolby, qualquer coisa que faça sua cadeira tremer. Foi feito para cinema, não para sofá. Em uma era de atenção curta e conteúdo descartável, “A Odisseia” é um lembrete e tanto do que o cinema ainda pode fazer.

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