Insaciável, 2026 (por Peter P. Douglas)

Insaciável (Saccharine, 2026), longa-metragem australiano de terror, distribuído pela Diamond Films, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 06 de agosto de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 113 minutos de duração.

Assim como Hana (Midori Francis), a protagonista que trava uma batalha desesperada contra a balança, “Insaciável”, dirigido por Natalie Erika James, promete mundos e fundos — e cumpre quase nada.

A abertura, com closes de Hana devorando comida compulsivamente enquanto observa o corpo esculpido de Alanya (Madeleine Madden) na academia, tenta estabelecer uma relação profunda entre consumo e forma humana. Tenta. A trama envolvendo fantasmas, bulimia e dismorfia corporal só adiciona mais ingredientes a um caldo que nunca chega a engrossar: pílulas misteriosas, traumas, simbolismos… tudo jogado na panela sem receita. O filme só resolve tocar nos seus temas mais óbvios lá no final, quando já é tarde demais para fingir coerência.

A trama segue Hana reencontrando uma colega que antes era voluptuosa e agora aparece magra como se tivesse passado por um ritual secreto. A insegurança da protagonista a leva a testar uma fórmula duvidosa de uma “droga milagrosa” que promete emagrecimento instantâneo. Naturalmente, ela ultrapassa todos os limites éticos para recriar a substância, e isso desencadeia alucinações de um espírito faminto que cresce em voracidade conforme Hana queima calorias. Como metáfora, não é totalmente rasa.

O fantasma também assume a forma do cadáver de uma mulher apelidada de “Grande Bertha” pelo colega insensível de Hana. Interpretada ora por um boneco de autópsia, ora por uma atriz soterrada em maquiagem grotesca, Bertha existe para provocar repulsa — nos personagens e no público. O filme até tenta humanizá-la em alguns diálogos, mas a câmera insiste em tratá-la como objeto de nojo, sabotando completamente o discurso de amor-próprio que tenta vender.

As aparições de Bertha acontecem apenas em superfícies convexas e refletoras. Essa presença fantasmagórica é tão simbólica que quase não tem função narrativa. É terror metafórico que não assusta, não tensiona e só começa a fazer algum efeito depois de quase duas horas de filme. E quanto mais Hana se perde em compulsões e desmaios, mais ela tenta racionalizar tudo com anotações que soam como autoproteção contra o próprio terror.

O filme raramente é assustador — e quando tenta, mal arranha o desconforto. Não é satírico, não é visceral, não é perturbador. É, no máximo, curioso por motivos que a diretora provavelmente não pretendia.

Isso tudo entra em conflito direto com o tema central — autoaceitação e rejeição da ideia de que gordura é falha moral. A câmera, porém, insiste em se deliciar com restos de comida na boca de Hana e com o cadáver nú de Bertha, como se estivesse mais interessada em provocar nojo do que reflexão. A colega curvilínea Josie (Danielle Macdonald) até exala confiança, mas nem Hana nem a câmera parecem notar, rejeitar ou explorar isso. Não há contraste psicológico, não há intenção estética clara, só ideias soltas.

Outros temas pairam sobre o filme como fantasmas mal resolvidos: pílulas milagrosas que poderiam remeter ao Ozempic, traumas familiares sugeridos mas nunca desenvolvidos, alusões tímidas a “fantasmas famintos” do budismo japonês. Tudo aparece e desaparece sem deixar marca, como se o roteiro tivesse sido escrito em notas de celular.

Há um filme bom escondido dentro de “Insaciável” — um que poderia misturar terror corporal com mecânicas narrativas envolventes. Mas a versão que chega ao público é dispersa demais para assustar, visualmente simples demais para ser memorável e intelectualmente frouxa demais para provocar qualquer reflexão séria. No ato final, até tenta, mas já perdeu o público há muito tempo.

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