
Hokum – O Pesadelo da Bruxa (2026), longa-metragem estadunidense de terror, distribuído pela Diamond Films, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 30 de abril de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 107 minutos de duração.
O irlandês Damian McCarthy está de volta para provar que jump scare só é mal utilizado quando o diretor é ruim. Nas mãos certas — como as dele — até uma sombra passando no corredor vira pesadelo premium. “Hokum: O Pesadelo da Bruxa” é seu terceiro longa, depois dos ótimos “Caveat” (2020) e “Oddity – Objetos Obscuros” (2024).
Assim como em “Oddity”, McCarthy adora colocar seu protagonista sozinho em lugares onde qualquer coisa pode arranhar portas, sussurrar no escuro ou simplesmente existir de forma perturbadora. São truques clássicos, mas usados com a paciência de quem sabe que o público vai sofrer — e vai gostar.
Adam Scott interpreta Ohm Bauman, um escritor famoso, alcoólatra, deprimido e com energia de “não fale comigo antes do café”. Ele mora nos Estados Unidos e está tentando terminar sua “Trilogia do Conquistador” quando uma figura do passado resolve aparecer para arruinar sua vida (como toda boa figura do passado faz). Ele foge para o Hotel Billberry Woods, na Irlanda — o tipo de lugar pitoresco onde você sabe que vai morrer ou encontrar um fantasma, ou os dois.
Ohm chega implicando com absolutamente todo mundo: reclama de Fergal (Michael Patric), filho do dono do hotel, que atira em cabras no estacionamento como se fosse apenas um dia como tantos outros. É grosso com o gerente Mal (Peter Coonan), cujo nome já entrega a vibe. E é cruel com Alby (Will O´Connell), o mensageiro aspirante a escritor, porque nosso protagonista acredita que sensibilidade é crime literário.
A única pessoa que o tolera é Fiona (Florence Ordesh), a bartender que olha para ele e pensa: “coitado, alguém precisa impedir esse homem de se autodestruir”.
Filmado no oeste de Cork, o filme é cheio de paisagens lindas e folclore local — incluindo Jerry (David Wilmot), um ermitão que bebe suco de cogumelos mágicos para “abrir a mente”. Ele é praticamente o Yoda psicodélico da floresta.
Sr. Cobb (Brendan Conroy), o dono do hotel, conta às crianças a história de uma bruxa que arrasta pequenos desafortunados pelo submundo. E, claro, ele acredita que a bruxa está presa na suíte nupcial — que está trancada e proibida. Então, quando Fiona desaparece, todo mundo diz: “vamos NÃO olhar lá dentro”. Ohm, que já está emocionalmente destruído, decide investigar com Jerry. E o que eles encontram é… bem, pior do que bruxa CGI, isso garantimos.
Enquanto isso, o filme intercala cenas do livro que Ohm está escrevendo: um conquistador do século XVI vagando pelo deserto com um menino e tomando decisões horríveis — tudo uma metáfora para o trauma familiar do protagonista. É o tipo de simbolismo que grita “sou profundo”, e funciona.
Adam Scott está excelente: consegue ser sarcástico, arrogante, vulnerável e ainda assim alguém por quem você torce, mesmo quando ele está sendo um babaca certificado. McCarthy usa isso muito bem.
E aí vem o terror: Um homem-coelho perturbador com olhos de “não durma hoje”; Um submundo cheio de criaturas que parecem ter saído de um pesadelo expressionista; Uma bruxa que NÃO é CGI (graças aos deuses do terror); E uma estética que não parece reciclada — o que já é uma vitória.
Há ecos de “O Iluminado”, claro: escritor alcoólatra, hotel isolado, trilha sonora que parece um coral de almas penadas. Mas McCarthy não faz cópia; faz homenagem com personalidade.
O final é um pouco longo — talvez McCarthy tenha se empolgado com o simbolismo — e tem uma cena que parece explicação extra que ninguém pediu. Mas nada que estrague o conjunto.
No fim, “Hokum: O Pesadelo da Bruxa” funciona porque não é só sobre bruxas, sustos ou corredores escuros. É sobre Ohm, seus traumas, sua culpa, sua arrogância e sua possível redenção. É terror com cérebro — e coração — por trás.
















