
O diretor barcelonês Cesc Gay, especialista em retratar gente urbana cheia de manias e ego inflado (ou seja, praticamente todo mundo), lançou em 2020 o filme “Sentimental” (The People Upstairs), adaptação de sua peça homônima de sucesso — que já ganhou versões francesa, americana e, quem sabe, em breve uma versão marciana, porque não.
Toda a história (em seus 82 minutos de duração) acontece no apartamento elegante e aconchegante onde Julio e Ana se preparam para receber visitas. Ana (Griselda Siciliani) está animadíssima, quase como se fosse receber celebridades, enquanto monta uma tábua de aperitivos digna de foto no Instagram. Julio (Javier Cámara), por outro lado, chega com a energia de alguém que já desistiu do dia antes do café da manhã. Ex-músico frustrado e atual professor de música, ele parece ter feito um pacto com o mau humor. Quando Salva, um bombeiro (Alberto San Juan), e Laura, uma psicóloga (Belén Cuesta), finalmente tocam a campainha, o casal anfitrião está tão tenso que parece cena perdida de “Kramer vs. Kramer” (1979).
Se você tem aquele vizinho que evita no elevador, ou se já fingiu não ouvir barulhos suspeitos às três da manhã, “Sentimental” vai te fazer rir de identificação. Gay domina tão bem as respostas afiadas e as pequenas maldades cotidianas que transforma cada momento em uma comédia de erros — daquelas que mostram como qualquer relação social pode azedar em segundos.
Assistir ao filme é quase uma sessão de terapia: ele lembra que ficar preso na própria cabeça, alimentando as mesmas irritações e rotinas, é o caminho mais rápido para a infelicidade. Muito melhor abrir as janelas, encarar o novo, respirar fundo e deixar o ar fresco circular — até porque seus vizinhos, de cima ou de baixo, vão agradecer. E nós também!
















