Fora de Rumo (por Peter P. Douglas)

Fora de Rumo (Derailed, 2005) é uma verdadeira salada cultural: dirigido por um sueco (Mikael Hafstrom, estreando em Hollywood), estrelado por dois europeus (Clive Owen e Vincent Cassel), dois rappers (RZA e Xzibit) e uma queridinha americana (Jennifer Aniston). É quase um experimento social cinematográfico. O resultado? Um caldeirão de tons, estilos e clichês que funciona.

Charles Schine (Owen) está vivendo a clássica crise de meia-idade: subestimado pela esposa, pela filha doente e até pela agência de publicidade onde trabalha. A vida dele é tão cinzenta que até o trem que perde parece estar tentando ajudá-lo. E é nesse trem perdido que ele conhece Lucinda Harris (Aniston), charmosa, espirituosa e igualmente infeliz no casamento. Eles começam uma paquera que tenta emular Cary Grant e Eva Marie Saint em “Intriga Internacional” (1959), mas com menos charme e mais cara de “isso vai dar errado”.

E dá errado mesmo. Quando estão prestes a consumar o caso num motel, surge LaRoche (Cassel), um francês psicopata que invade o quarto, espanca Charles e comete um crime horrível contra Lucinda. É grotesco, perturbador e deixa claro que o filme não está aqui para sutilezas.

Com medo de expor o caso extraconjugal, Charles e Lucinda decidem não chamar a polícia — decisão que entra imediatamente para o ranking de piores escolhas possíveis em thrillers. LaRoche começa a chantagear Charles, pedindo primeiro 20 mil dólares, depois 100 mil, e por aí vai.

A partir de então, Charles vira um tutorial ambulante de “como NÃO reagir quando um criminoso te ameaça”. Ele tenta resolver tudo sozinho, envolve um ex-colega (RZA), toma decisões péssimas e, claro, tudo piora. LaRoche e seu capanga Dexter (Xzibit, surpreendentemente ótimo) dominam a situação com facilidade.

O filme explora a impotência de Charles de forma quase literal — inclusive numa cena em que LaRoche o agarra pelas partes íntimas e o joga contra a parede. É o tipo de metáfora que não precisa de interpretação.

Clive Owen, normalmente excelente como britânico durão, aqui está preso num papel que exige que ele seja… um banana, por quase duas horas. E não funciona. Ele tenta, mas seu carisma natural fica sufocado. Aniston, por sua vez, entrega uma boa performance, mas aparece tão pouco que sua personagem nunca ganha profundidade. A química entre os dois é tão fraca que você quase torce para que cada um volte para sua casa e finja que nada aconteceu.

Cassel, por outro lado, está se divertindo horrores. Ele alterna sotaques, exagera, faz caretas — é quase uma performance à la Meryl Streep, se Meryl Streep interpretasse um vilão de thriller erótico dos anos 90.

O roteiro de Stuart Beattie é cheio de pistas (algumas óbvias, outras não), referências a Hitchcock e até um curativo no nariz estilo “Chinatown” (1974). As reviravoltas? Quem estiver prestando atenção adivinha. No geral, Hafstrom dirige “Fora de Rumo” com estilo, tornando-o um filme noir, ousado e cheio de camadas, com atuações boas e uma trama interessante.

Assista o filme aqui:

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