
“Titane” (2021), de Julia Ducournau, — sobre um carro que engravida uma mulher — chega como a continuação espiritual de “Raw” (2016) — o famoso “filme de canibalismo universitário” que traumatizou metade do público e deixou a outra metade pedindo mais. Eu, pessoalmente, fiquei no meio-termo: não amei, não odiei, mas reconheci que Ducournau tem talento de sobra e zero medo de fazer o espectador suar frio.
Pois bem: em seu segundo longa-metragem, eu continuo firme no meu papel de espectador confiante, porém ligeiramente apreensivo. Não porque o filme seja ruim — longe disso — mas porque Ducournau parece ter decidido que seu cinema não precisa ser agradável, apenas inesquecível. E nisso ela acerta em cheio.
A fotografia de Ruben Impens é um espetáculo, a montagem de Jean-Christoph Bouzy te puxa para dentro do filme como se fosse um abraço desconfortável, e as provocações corporais e psicológicas são tão fortes que você quase sente o cheiro de óleo de motor. Mérito total para o departamento de maquiagem, que claramente não tem medo de nada.
Mas “Titane” é aquele tipo de filme que funciona melhor na conversa do que na experiência. É perfeito para debates acalorados no bar, análises profundas, interpretações múltiplas, discussões sobre dismorfia corporal, gênero, identidade, trauma… mas sentar e assistir? Aí já é outra história. Não é exatamente prazeroso. É mais como uma montanha-russa emocional construída por alguém que nunca ouviu falar em normas de segurança.
A comparação com Cronenberg é inevitável — e até justa — mas com ressalvas. Cronenberg, mesmo no auge da bizarrice, ainda entregava entretenimento de gênero: sustos, tensão, aquele nojo divertido que faz você rir nervoso. “Titane”, por outro lado, é tão “cinema de arte francês” que às vezes parece uma paródia de si mesmo. Tem violência gráfica, tem estranheza, tem ousadia… mas raramente tem diversão. E para um filme tão surpreendente, isso pesa.
O curioso é que o filme parece, ao mesmo tempo, maduro demais (como se tivesse vergonha da própria maluquice) e imaturo demais (como um adolescente rebelde que te encara esperando reação). É uma mistura fascinante, mas nem sempre equilibrada. Ainda assim, Ducournau tem algo especial. Ela não está tentando agradar ninguém — e isso, paradoxalmente, é o que torna seu trabalho tão interessante. Ela ainda tem arestas a lapidar, mas o talento está ali, brilhando no meio de tudo.
E, claro, nada disso funcionaria sem Agathe Rouselle e Vincent Lindon, que entregam performances tão comprometidas que você quase esquece que está vendo um filme e não uma sessão de terapia experimental. Eles são o coração de “Titane”, especialmente quando a energia frenética do início começa a se dissipar. No geral, talvez não seja uma obra que você queira rever, mas certamente vai querer discutir. É estranho, ousado, desconfortável e, acima de tudo, impossível de ignorar — exatamente como Julia Ducournau gosta.











