Honestino, 2025 (por Peter P. Douglas)

Honestino (2025), longa-metragem documental nacional, distribuído pela Pandora Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 13 de agosto de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 85 minutos de duração.

Ainda bem que o diretor Aurélio Michiles resistiu à tentação de fazer um docudrama cheio de reconstituições duvidosas. Em vez disso, escolheu o caminho “seguro”: um documentário tradicional sobre Honestino Guimarães, líder estudantil em 1968, aluno da UnB, presidente da UNE e “desaparecido” pela ditadura militar aos 26 anos. Paralelamente, costurou uma dramaturgia em forma de monólogo, uma tentativa de nos aproximar das angústias e da voz do próprio Honestino — ainda que essa voz precise ser emprestada por Bruno Gagliasso, já que o protagonista na vida real deixou pouquíssimos registros. A clandestinidade e a morte precoce não ajudam muito na hora de montar um retrato íntimo.

O problema é que o filme parece sofrer de uma contradição básica: quer apresentar Honestino a um público que, em sua maioria, não sabe quase nada sobre ele, mas faz isso de maneira tão fragmentada que o espectador termina sabendo pouco mais do que uma lista de eventos. “Primeira prisão, segunda prisão, quarta prisão”… tudo enumerado como se fosse um boletim burocrático, sem explicar como cada prisão aconteceu, quem ordenou, o que mudou na vida dele ou como isso moldou sua personalidade. É como se o filme tivesse medo de se comprometer com qualquer interpretação mais profunda.

O resultado é um inventário de deslocamentos e verbos: ele disse, ele partiu, ele se escondeu, ele escreveu. Sabemos que passou por Goiás, Brasília, São Paulo, Rio. Conhecemos duas esposas, alguns amigos de luta. Mas nada disso constrói sua intimidade. O percurso está lá, o homem, não. Terminamos o documentário sabendo muito pouco sobre seu temperamento, seus gostos, seus medos, sua vida além da perseguição política. Michiles parece tão preocupado em preservar Honestino como símbolo histórico que acaba sacrificando Honestino como pessoa.

Os depoimentos ajudam a reforçar sua importância política, mas a camada íntima — aquela que deveria nos aproximar dele — fica reduzida a quase nada. O filme tenta honrar o ícone, mas esquece de apresentar o indivíduo. O resultado é um retrato respeitoso, porém distante, que ilumina o símbolo e deixa o ser humano na sombra.

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