A Fabulosa Máquina do Tempo (por Peter P. Douglas)

A Fabulosa Máquina do Tempo (2025), longa-metragem nacional documental, distribuído pela Descoloniza Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 30 de julho de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 70 minutos de duração.

O Documentário nos leva ao sertão de Guaribas, no Piauí, o berço do Bolsa Família. A diretora Eliza Capai transforma o árido interior brasileiro em cenário para um rito de passagem onde meninas equilibram o peso das vidas de suas mães com sonhos tão grandiosos que quase fazem o chão rachado parecer um portal para outra dimensão. Num território ainda regido por padrões patriarcais, a fantasia vira ferramenta de sobrevivência, não fuga — ou pelo menos é isso que o filme insiste em repetir.

A narrativa gira em torno da pergunta “Se você tivesse uma máquina do tempo, iria para o futuro ou para o passado?”, uma ideia lúdica que o documentário trata como se fosse uma chave filosófica capaz de destrancar toda a experiência feminina. A tal “máquina” funciona como dispositivo metalinguístico, permitindo que as meninas encenem questões como casamento, amadurecimento e educação, enquanto o filme tenta nos convencer de que estamos diante de uma reflexão profunda e não apenas de crianças brincando de faz de conta com uma câmera por perto.

As meninas formulam perguntas existenciais — “Você acha que o futuro já existe?” — e o filme as apresenta como se estivéssemos ouvindo pequenas filósofas. Temas pesados como alcoolismo, religião, machismo e medo da morte aparecem embalados pela imaginação infantil, numa tentativa de suavizar a dureza da realidade sem perder o impacto. Capai insiste em não deslegitimar o ponto de vista das crianças, mas às vezes parece mais encantada com a ideia de “voz infantil” do que com o que elas realmente dizem.

A diretora adota uma abordagem participativa, quase cúmplice, transformando as meninas em coautoras. A cena inicial — com as protagonistas segurando microfones e câmeras improvisadas — é o tipo de imagem que o filme adora: espontânea, simbólica e perfeita para festivais.

As entrevistas das mães, conduzidas pelas próprias filhas, são o ponto mais forte — e também o mais óbvio. As respostas sobre voltar no tempo repetem o mesmo refrão: estudar mais, não casar cedo, não ter filhos tão jovens. É um espelho geracional que o filme trata como revelação, embora seja exatamente o que qualquer pessoa minimamente familiarizada com a realidade brasileira já sabe.

No fim das contas, “A Fabulosa Máquina do Tempo” é um documentário sensível e bem-intencionado, mas também profundamente enamorado da própria proposta. Ele celebra a imaginação das meninas e sua capacidade de questionar padrões, mas faz isso com uma camada de idealização que beira o excesso. É comovente, sim — e também cuidadosamente construído para parecer comovente. Uma reflexão sobre herança social e futuro, filtrada por uma lente que transforma cada brincadeira em epifania.

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