Behemoth: Uma Vida Composta em Peças (por Peter P. Douglas)

Behemoth: Uma Vida Composta em Peças (Behemoth!, 2026), longa-metragem estadunidense dramático, distribuído por 20th Century Studios, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 03 de dezembro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 126 minutos de duração, dirigido por Tony Gilroy.

Existem várias maneiras de interpretar o título “Behemoth” (superficialmente, ele faz referência a algo dentro da trama), mas a origem da palavra vem da bíblia, do Livro de Jó, e descreve algo enorme, poderoso, colossal. Tornando-a uma palavra perfeita para descrever uma orquestra que se reune para tocar uma peça: dezenas de pessoas diferentes, cada uma com seu instrumento, que de repente se fundem em um único organismo gigante. Pode-se dizer que o filme é uma carta de amor às trilhas sonoras e às pessoas que as criam.

Apesar do título parecer gigantesco, a obra se concentra na vida de um homem, não na orquestra inteira. Acompanhamos Alex (Pedro Pascal), um violoncelista que retorna a Los Angeles para cuidar da mãe doente. Não espere, de imediato, a apresentação do conflito central. O diretor conecta fragmentos até que a estrutura se revela. A narrativa se organiza como movimentos, não como atos. Acompanhamos Alex vivendo, sem pressa.

Essa abordagem pode não funcionar para todo mundo, já que leva tempo para entender quem Alex é. Mas quanto mais se pensa nisso, mais a estrutura narrativa parece uma composição musical. Às vezes harmoniosa, às vezes dissonante. E se pararmos pra refletir, não se trata de correr para o fim, mas de apreciar o caminho. A vida é assim!

Pedro Pascal aprendeu violoncelo e a decorar suas falas ao mesmo tempo, o que lhe proporcionou estar em praticamente todas as cenas. Alex é imperfeito, mas simpático; enigmático, mas envolvente. As pessoas continuam acolhendo-o de volta, e isso nos faz perguntar por que ele foi embora — antes mesmo de o conflito central se cristalizar. Pensonagens se encontram com o protagonista, entre eles, Nadia (Eva Victor) que mesmo aparecendo pouco em tela (até um pouco mais que os demais), se mostra a grande atração de Alex.

A música é o centro do filme. Nove compositores assinam a trilha: James Newton Howard, Alan Silvestri, Brandon Roberts, Michael Abels, Emily Bear, Lukas Frank, Michael Giacchino, Henry Jackman e Nami Melumad. A variedade cria amplitude sonora, mas mantém unidade.

É uma aula de como usar música e som no cinema. A trilha, o design de som e a edição são impecáveis. John Gilroy edita com ritmo musical, e os cortes de áudio são extraordinários: o som de alguém batendo numa porta vira batida de tambor; uma nota de trilha vira gente cantando “Parabéns a Você” em outra cena. Em outro momento, Alex está compondo uma música tensa para uma perseguição — e o filme corta para sua ex-namorada Carol (Olivia Wilde) perseguindo-o num evento. Ele literalmente compõe a trilha do próprio problema. A história é simples, mas os aspectos técnicos a elevam.

O filme trabalha bastante com o choque entre passado e presente. Alex retorna após anos e precisa lidar com antigos relacionamentos e dramas familiares. Ao mesmo tempo, utiliza isso como contraponto entre estilos clássicos e modernos através da personagem Viviana (Alexa Swinton), uma prodígio de 15 anos. Seu estilo representa o contemporâneo; o de Alex, a tradição. Ver esses estilos se unirem reflete a vida de Alex — seu passado moldando seu presente.

O slogan, em inglês, de “Behemoth” é “A Life – Uma vida. In Pieces – Em pedaços.” E é exatamente isso: Gilroy nos apresenta fragmentos desconexos da vida de Alex — relacionamentos, família, música, memórias — que aos poucos se unem. O filme leva tempo para encontrar seu ritmo, mas é apropriado que uma obra tão preocupada com música nos convide a apreciar cada nota, não apenas o acorde final.

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