
A Violência de Ninguém (Nobody’s Violence AKA Violence du Corps de l’Autre, 2026), longa-metragem canadense de drama, produzido por Voyelles Films, estreou, oficialmente, na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, com classificação indicativa 16 anos e 118 minutos de duração, dirigido por Denis Côté.
Mira (Larissa Corriveau) é uma jovem que trabalha para uma organização misteriosa que oferece morte assistida a doentes terminais. Geralmente, seus clientes são pacientes com câncer em estágio final.
O filme já começa com Mira entregando um comprimido a uma mulher com câncer de pulmão, aconselha-a a beber bastante água e a deixa sozinha em um carro estacionado — onde o ato se transforma, na prática, em um suicídio assistido solitário. É o tipo de cena que faz você pensar: “ok, então é esse o clima”.
Esse distanciamento clínico logo é atravessado por pequenos detalhes humanos. Um dos clientes de Mira, um senhor idoso que ouvia rock pesado antes de morrer, vivia cercado por um cachorro minúsculo e um gato enorme. Depois do procedimento, Mira sai da casa carregando não só o peso emocional do encontro, mas também o próprio cachorro. O animal vira um companheiro silencioso, quase um lembrete ambulante das vidas que ela toca e abandona.
Mira mora numa casa isolada na floresta com o casal Ludo (Philippe Rebbot) e Madeleine (Amélie Dallaire). O estilo de vida deles — sensual, distante, meio libertário — contrasta com o peso moral do trabalho que supervisionam. Ludo, em particular, acha que Mira é “humana demais”: fica tempo demais com os clientes, se apega demais, sente demais. Ele insiste para que ela adote uma postura mais transacional, quase como se estivesse vendendo planos de celular, e não supervisionando mortes. Essa tensão entre procedimento e empatia vira uma das rachaduras centrais do filme.
Um ponto de virada acontece quando Mira conhece Pierrick (Xavier Bergeron) em um festival de inverno — um jovem que insiste em ser chamado de Flanagan e que, por sua vez, renomeia Mira como Crystal. A dinâmica entre eles é frágil, quase surreal. Flanagan é carismático, otimista, mas claramente instável. Durante uma noite juntos, ele revela um canivete e conta uma história sobre preferir se automutilar a ferir alguém — um momento que transforma a intimidade hesitante em algo silenciosamente ameaçador. No futuro, eles irão se reencontrar, e tudo o que Mira conhece irá ruir.
Côté, diretor conhecido por seu cinema minimalista e provocativo, sempre gostou de explorar as fronteiras entre observação e narrativa, ética e abstração. Seu estilo resiste ao convencional: estruturas elípticas, ritmos não lineares, uma atenção quase clínica ao comportamento humano.
Lento, inquietante e carregado de reflexões filosóficas, “A Violência de Ninguém” trata menos da morte assistida e mais das repercussões éticas e emocionais desse ato. Côté constrói um espaço onde o desconforto persiste, onde testemunhar é inseparável de questionar.










