O Rei da Internet (por Peter P. Douglas)

O Rei da Internet (The King of the Internet, 2025), longa-metragem nacional de comédia e drama, distribuído pela Manequim Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 14 de maio de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 135 minutos de duração, dirigido por Fabrício Bittar (Inexplicável, 2024).

Quem viveu a internet do começo dos anos 2000 sabe: aquilo não era “rede mundial de computadores”, era Velho Oeste com emoticon de dois pontos e parênteses. Enquanto alguns ficavam maravilhados com a possibilidade de mandar e-mails e baixar wallpapers do Naruto, outros viam ali um território novo, selvagem, pronto para ser conquistado — ou hackeado.

É nesse espírito que o livro “DNpontocom”, escrito por Daniel Lofrano Nascimento em parceria com Sandra Rossi, virou a cinebiografia “O Rei da Internet”, munida de diversas narrações em off, claramente feitas por um personagem não confiavel.

O filme nos joga de volta para a era da internet discada, quando entrar no MSN significava derrubar o telefone da casa inteira. Mas não se engane: não é nostalgia fofinha, não. É sexo, drogas, corrupção, hackers e turbulência digital.

Daniel Nascimento (João Guilherme) tem quinze anos quando os computadores começam a invadir as casas brasileiras. Os pais acham que aquilo é só uma fase, tipo tamagotchi, mas decidem apoiar o menino e o colocam num curso de informática. O problema? Daniel aprende mais do que deveria. Hacking não estava no currículo, mas a curiosidade estava — e, antes que perceba, ele está invadindo sites de bancos e roubando cartões de crédito como quem troca skin no Roblox.

E claro: isso chama atenção. Outros hackers brasileiros o encontram e o adotam como se fosse um filhote promissor. De repente, Daniel está vivendo uma vida de poder, dinheiro e adrenalina, tudo antes de completar dezessete anos. Enquanto você, aos dezessete, provavelmente estava tentando passar em matemática.

Bittar conversou com o verdadeiro Daniel por meses, e o documentário tem esse ar de “confissão criminosa com trilha sonora eletrônica”. O diretor cresceu na mesma internet primitiva — salas de bate-papo, blogs, jogos que travavam o PC — então existe uma admiração quase nostálgica pelo que Daniel conseguiu fazer com computadores que hoje mal rodariam o Google.

O filme tem uma energia frenética, é literalmente “O Lobo de Wall Street” versão LAN house tupiniquim. Começa com a polícia federal invadindo a casa da quadrilha, tudo em câmera acelerada, até congelar no clássico “sim, esse sou eu”. O tom é uma mistura deliciosa de caos, humor adolescente, autoconfiança e reflexão sobre como a segurança digital dos anos 2000 era basicamente um guardanapo escrito “não mexa”.

O melhor exemplo dessa mistura? O pesadelo de Daniel, onde o mascote do Linux — sim, o pinguim — aparece com dentes afiados e cara de quem vai te cobrar uma dívida. É maravilhoso e perturbador na mesma medida.

Daniel narra: “Por que entrar para a marinha quando você pode ser um pirata?” E o filme abraça essa filosofia. Assim como “O Lobo de Wall Street”, a obra se preocupa mais com a ascensão e queda do protagonista do que com as vítimas dos golpes. É uma jornada turbulenta, divertida e desconfortável, que captura perfeitamente aquela época em que a internet parecia um brinquedo novo e perigoso.

Em geral, “O Rei da Internet” coloca o espectador dentro da mente de Daniel — um lugar às vezes libertador, às vezes criminoso, às vezes “meu Deus, menino, para com isso”. É empolgante, surpreendente e, ao mesmo tempo, crítico o suficiente para lembrar que, por trás da aventura, havia consequências reais.

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