O Advogado de Deus (por Peter P. Douglas)

O Advogado de Deus (2026), longa-metragem nacional de drama, distribuído pela Sony Pictures, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 16 de abril de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 117 minutos de duração, dirigido por Wagner de Assis e baseado no best-seller espírita de Zíbia Gasparetto e Lucius.

O filme nos dá, desde seus primeiros minutos, duas certezas absolutas: A primeira, é a de que nada acontece por acaso (Deus tem uma agenda tão organizada que faria até o Google Calendar passar vergonha) e a segunda, é a de que a justiça humana é uma grande piada, mas a divina nunca erra.

Com isso em mente, a trama acompanha Daniel (Nicolas Prattes), um advogado idealista que acredita piamente que pode mudar o mundo… até descobrir que o mundo prefere continuar exatamente como está. Ele pode ser considerado o homem mais honesto e iluminado desde que Moisés desceu do monte Sinai.

Daniel é o herói perfeito: odeia injustiça, fala frases de efeito como se estivesse concorrendo a vereador e, apesar de vir de família rica, recusa qualquer privilégio — porque, claro, ninguém é mais puro do que um protagonista de filme religioso. Ele só aceita causas “nas quais acredita”, se apaixona à primeira vista por Lídia (Lorena Comparato) – um amor de outra vida – e ainda precisa salvá-la de mafiosos.

Não podemos esquecer do principal… que para investigar (aliás, melhor parte da obra), resolver um caso policial envolvendo espíritos, vidas passadas e um roteiro que parece ter sido escrito com ajuda de um tabuleiro Ouija, Daniel vai precisar de uma ajudinha do além.

Aqui não existe meio-termo: ou você é bom o suficiente para ganhar um lugar no céu com vista para o mar, ou é tão mau que já pode ir escolhendo seu cantinho no inferno. O diretor não deixa margem para dúvidas — ele literalmente mostra céu, inferno, espíritos, luz branca entrando pela janela e tudo mais que o pacote espírita tradicional oferece.

O filme trata o público como uma turma de catequese: tudo é explicado com a clareza de um manual de instruções. Quem amar, quem detestar, quem vai ser punido, quem vai ganhar beijo no final. A moral da história é dita em voz alta, caso alguém tenha piscado e perdido algum detalhe. É quase uma fábula, só faltam os animais falantes.

Agora, se você tentar aplicar lógica ao roteiro… boa sorte. Daniel, sem provas, sem pistas e sem paciência, recebe uma dica do além que literalmente entrega o endereço da testemunha. Mas, curiosamente, esses mesmos espíritos que sabem tudo e podem impedir tiros decidem, em outros momentos, virar coach motivacional e soltar frases como “escute seu coração”. Se eles têm tanto poder, por que não resolvem logo o caso e vão descansar?

Mas calma, porque o filme não está preocupado com coerência. Ele quer é pregar valores. Então temos rivais de vidas passadas se reencontrando, mocinha que morreu no passado correndo risco de morrer de novo (numa cena tão improvável que dá vontade de perguntar se o espírito responsável estava de folga), e criminosos que ora tremem de medo, ora agem como se fossem intocáveis. Fica difícil saber se eles estão apavorados ou tranquilos — talvez ambos, dependendo da cena.

No fim, “O Advogado de Deus” é um filme que acredita tanto na própria mensagem que nem percebe quando escorrega. Mas, se você gosta de espíritos didáticos, romances reencarnados e justiça divina resolvendo aquilo que o Código Penal não dá conta, pode ser uma experiência… digamos… espiritualmente divertida.

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