Vitória Régia – A Resposta Somos Nós (por Peter P. Douglas)

“Vitória Régia – A Resposta Somos Nós” é um curta-metragem ficcional de 21 minutos de duração, que mistura suspense e crítica social, ambientado em uma versão alternativa e distópica do Brasil.

A trama se passa em 2023, um cenário onde (em 08 de janeiro: Presidente, Vice, e um Ministro do STF são assassinados) após um golpe (chamado oficialmente de “revolução”), parte da Amazônia foi cedida aos Estados Unidos, tornando-se o território “Amazon of America”. A exploração de petróleo é intensificada e o acesso à região é rigidamente controlado por militares, com censura total à imprensa.

Carolina (Alice Braga), uma jornalista, é escalada por seu chefe Fernando (Marat Descartes) para cobrir a inauguração de uma refinaria na Amazon of America em Belém/PA. Carol quer que sua colega fotógrafa Marina (Marina Person) a acompanhe, o que é negado, fazendo-a perceber que a viagem é uma “missão de fachada”, onde os jornalistas não têm liberdade para ver a realidade da floresta, sendo confinados a uma sala em uma instalação militar, onde assistem apenas a vídeos oficiais.

Durante o evento, o jornalista Pedro (Caio Horowics), amigo de Marina, ajuda Carol a escapar da sala. No caminho, ela se depara com um garçom (Hodari) e segue-se uma sequência de perseguição pela floresta, onde Carol é caçada por soldados que utilizam tecnologia de rastreamento térmico.

Carol é resgatada e acolhida por um grupo de resistência indígena. Lá, ela conhece o significado da Vitória Régia, símbolo que representa a força da “Encantaria” e funciona como um escudo de proteção espiritual e política para o povo.

Enquanto Carol está desaparecida, seus colegas jornalistas tentam viralizar sua foto nas redes sociais. A ideia é que a visibilidade pública a proteja de um “desaparecimento” definitivo pelas mãos do exército.

O filme culmina em um confronto simbólico e físico entre a tecnologia militar — que trata as populações locais como “descartáveis” e a resistência ancestral. Encerra-se a narrativa com um discurso sobre os 500 anos de luta indígena, reforçando que a destruição da floresta e as mudanças climáticas (queimadas e inundações) são problemas que agora atingem a todos, tornando a luta pela sobrevivência uma batalha coletiva: “ou todo mundo vive, ou todo mundo morre”.

A obra utiliza elementos do audiovisual para questionar a soberania, a destruição ambiental e o papel da informação em tempos de autoritarismo.

Tecnicamente, “Vitória Régia – A Resposta Somos Nós” funciona direitinho. Os efeitos especiais, inclusive, parecem ter vindo de um universo paralelo onde curtas brasileiros têm orçamento — o que já é um plot twist por si só. Alice Braga, como sempre, entrega atuação de nível “não sei por que vocês ainda se surpreendem”, enquanto o resto do elenco tenta acompanhar como pode.

O roteiro deixa bem claro o que quer dizer, mesmo quando resolve dar uma passeada pelo realismo fantástico. Porém, em alguns momentos, abraça o caricatural com tanta força que enfraquece a proposta, deixando a crítica menos contundente.

Apesar do tom ficcional, o curta claramente está arraigado nos fatos sobre o Marco Temporal e às manifestações em Brasília, buscando se tornar um manifesto sobre o presente. O discurso final sobre os “500 anos de resistência” reforça que, para os povos originários, o apocalipse não é um evento futuro, mas um processo contínuo que eles vêm combatendo há séculos.

A mensagem central — de que destruir a floresta é basicamente assinar um contrato coletivo de autodestruição (“ou todo mundo vive, ou todo mundo morre”) — transforma o curta em um alerta ambiental vestido de thriller. Um thriller que, dependendo do espectador, pode ser emocionante, incômodo, inspirador, chato ou risível.

Vai agradar alguns, vai irritar outros, mas no fim das contas, vale assistir e tirar suas próprias conclusões. Até porque, se tem algo que esse curta deixa claro, é que opinião alheia não salva ninguém — mas informação, talvez, salve.

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