Somente Uma Vez, 2021 (por Peter P. Douglas)

Guillermo Ríos estreia na direção de longas-metragens adaptando uma peça teatral que tenta abraçar um tema espinhoso — violência de gênero — mas, como toda transposição do palco para o cinema, sacrifica algumas coisas no caminho. No caso, o ritmo: mesmo com a maior parte da ação confinada a um consultório, o filme se esforça para parecer ágil, e só consegue porque dura pouco (82 minutos).

Os protagonistas mergulham o público no debate sobre violência de gênero, mas o roteiro escolhe uma abordagem “diferentona”. O marido (Álex García) não entra em cena como o típico agressor, sendo apresentado como o sujeito charmoso, engraçado, o tipo de homem que a sociedade adora defender. A esposa (Silvia Alonso), por sua vez, se vê como tudo menos uma vítima — e o filme insiste em mostrar a violência não pelos grandes atos, mas pelos pequenos gestos, silêncios e microagressões que corroem devagar. Nada de sensacionalismo: é a história de alguém que não percebe que está afundando.

A conversa a três — casal e terapeuta (Ariadna Gil) — tenta desmontar masculinidades tóxicas e a estrutura patriarcal, mas faz isso com aquele tom de “debate de mesa-redonda” que parece sempre prestes a virar palestra. Surgem justificativas clássicas: agressor que é filho de agressor, “ele é jovem demais para controlar o temperamento”, e outras desculpas recicladas que o filme exibe como se estivesse revelando segredos profundos da sociedade.

A dupla de atores que interpreta o casal, tem química e funciona bem. O problema é Ariadna Gil, cuja atuação oscila entre intensa e artificial, como se estivesse tentando compensar a falta de dinamismo do cenário com expressões exageradas. Os três seguram o debate, mas os argumentos nunca chegam a lugar nenhum — e o final é tão aberto que parece mais indecisão do roteiro do que escolha artística.

No fim das contas, “Somente Uma Vez” é um filme que quer provocar reflexão, mas entrega mais conversa do que impacto. Uma estreia correta do diretor Guillermo Ríos, mas longe de ser arrebatadora.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *