O Preço de Um Corpo (por Peter P. Douglas)

No longa-metragem húngaro “O Preço de Um Corpo” (Szelíd AKA Gentle, 2022), Edina (Eszter Csonka) é uma fisiculturista em ascensão — daquelas que fazem você repensar todas as vezes em que disse “segunda eu começo a academia”. Sob o olhar exigente de Adam (Gyorgy Turos), seu parceiro profissional e romântico, ela vai conquistando torneios cada vez maiores, equilibrando músculos que parecem esculpidos em mármore com poses tão graciosas que fariam até uma bailarina pensar: “poxa, podia tentar isso também”.

A cena de abertura já chega dizendo “presta atenção em mim”. A câmera gira ao redor de Edina enquanto ela gira para os juízes, e você percebe que Csonka não está para brincadeira. Contudo, o filme não tenta esconder o lado menos glamouroso do esporte. Nada de filtros bonitos: aqui tem agulha, suor, cansaço e aquela sensação de “meu Deus, como alguém faz isso por vontade própria?”. Edina é a obra de arte e também a artista — ela posa, mas também sofre, treina, repete, desidrata e tenta não desmaiar no processo. E, para piorar, quando o público vai tietar alguém, quem recebe atenção é Adam, o ex-campeão. A vida é injusta até no mundo dos bíceps.

A dupla percebe que, para subir de nível, precisa de dinheiro — muito dinheiro. Suplementos, alimentação, viagens, inscrições… fisiculturismo é basicamente um esporte onde você paga para sofrer. Adam tenta arrumar um trabalho extra no estilo “Magic Mike”, mas digamos que… não rola. Então tudo cai no colo de Edina, que aceita um trabalho alternativo como acompanhante — sempre tratado pelo filme de forma discreta e respeitosa.

Ela começa fazendo o que já faz no palco: poses, contrações musculares, aquela coreografia que só quem tem 0% de gordura corporal consegue fazer. Mas, aos poucos, ela encontra clientes que buscam algo mais emocional do que físico — gente que só quer conversar, ser acolhida, ou ter um momento de conforto. Nada explícito, nada gráfico — apenas encontros que revelam que Edina pode oferecer mais do que músculos.

Mas, como ninguém vira fisiculturista sem um toque de obsessão, Edina começa a se perder. Entre o controle sufocante de Adam, o julgamento do pai e a pressão da competição, ela foge para esses encontros como quem foge para um mundo onde finalmente pode respirar. Só que fuga emocional raramente resolve o problema — e o filme sabe disso.

Os roteiristas e diretores Anna Eszter Nemes e Laszlo Csuja, além de encontrarem dois atores não profissionais impressionantes, conduzem tudo com estilo: enquadramentos divididos, espelhos que revelam mais do que escondem, cores frias que fazem os biquínis brilhantes parecerem peixes tropicais perdidos no Ártico. A relação entre Edina e Adam vai ficando tensa, enquanto a relação dela com o cliente misterioso e rico ganha tons quase poéticos.

No fim, “O Preço de Um Corpo” é cheio de contradições deliciosas: é sobre força e fragilidade, disciplina e fuga, corpo e alma. Ele começa parecendo um filme sobre músculos, mas termina sendo um filme sobre humanidade — e sobre como até quem parece invencível por fora pode estar desmoronando por dentro.

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