
Surda (Sorda AKA Deaf, 2025), longa-metragem espanhol de drama, distribuído pela Retrato Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 14 de maio de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 99 minutos de duração.
A maternidade de primeira viagem já é difícil para qualquer pessoa. Agora, imagine passar por tudo isso sendo surda. O filme de estreia da diretora Eva Libertad, nos convida justamente a entrar nesse universo — e, olha, não é passeio no parque, não. É mais tipo “montanha‑russa emocional sem cinto”.
Ángela (Miriam Garlo, que também é surda na vida real) está grávida pela primeira vez e vive com Héctor (Álvaro Cervantes), seu marido ouvinte (nomeclaruta dada a pessoas que ouvem e falam), que basicamente virou um combo de intérprete, chef particular e dançarino de cozinha. O relacionamento deles tem uma doçura natural, daqueles que fazem você pensar “poxa, queria alguém que me fizesse risoto enquanto dança comigo”. Garlo brilha como uma mulher espirituosa, determinada e que não aceita desaforo — mas que também tenta equilibrar o próprio mundo com o mundo dos ouvintes, que às vezes parece um videogame no modo difícil.
Apesar disso, o lugar onde Ángela realmente respira é entre seus amigos surdos. Com a família ouvinte, sempre existe aquela barreira invisível — especialmente com sua mãe, Elvira (Elena Irureta), que tem o talento especial de desvalorizar a independência da filha enquanto ajuda.
O filme é contemplativo, silencioso e cheio de nuances. E aí chega a cena do parto — e, meu amigo, que cena. Médicos falando sem parar, máscaras que impedem leitura labial, gente correndo, luzes piscando… e Ángela ali, no meio do caos, sem saber exatamente o que está acontecendo. É como assistir a um tutorial em russo enquanto tentam arrancar um bebê de você. A sensação de pânico é real.
Depois do nascimento de Ona, que é ouvinte, começam as inseguranças clássicas da maternidade — só que amplificadas pela surdez. Ángela se pergunta se a filha gosta dela, se vai aprender língua de sinais, se Héctor está se conectando mais com a bebê do que ela. É um turbilhão emocional que o filme retrata com delicadeza, mas também com aquela pontinha de angústia que faz o espectador querer abraçar a protagonista.
A narrativa às vezes divaga, sim. Tem momentos em que você pensa “ok, para onde estamos indo?”. Mas, se você tiver paciência, o filme recompensa. Ele traz reflexões importantes sobre maternidade, família, comunicação e o que significa se sentir deslocada até dentro da própria casa.
Em geral, “Surda” não é um filme fácil — mas é um filme necessário. E, no fim, deixa aquela sensação de que, apesar de tudo, Ángela está encontrando seu caminho… mesmo que tropeçando um pouco no processo, como todo mundo.












