
No livro “Coisa Que Não Edifica Nem Destrói”, publicado pela editora Tinta da China Brasil, o humorista português, Ricardo Araújo Pereira (RAP) aparece fazendo aquilo que faz melhor: desmontar o mundo com humor — e, ao mesmo tempo, explicar por que o humor é justamente a ferramenta mais eficiente para desmontar o mundo.
O livro é uma espécie de laboratório onde RAP abre o capô da comédia, mostra as engrenagens, aponta as peças que não encaixam, ri delas e ainda explica por que elas não encaixam. É um ensaio que não tenta ser tratado definitivo, mas que sabe exatamente onde ir para mostrar que a comédia é tão antiga quanto o medo e tão necessária quanto o ar.
O ponto de partida é simples: o humorista não é um médium recebendo mensagens divinas. Ele pensa, calcula, prepara, afia o timing, escolhe palavras e finge espontaneidade com a precisão de um relojoeiro. RAP desmonta a fantasia do “comediante que fala o que vem à cabeça” e mostra que o humor é trabalho — trabalho sério, irônico, meticuloso e, claro, divertido. Ele cita Freud para explicar que o humor é construção consciente, é técnica, é ofício.
O livro também explora a velha tendência humana de ficar ofendida com qualquer coisa. RAP lembra que não foi só Chris Rock levando bofetada em palco, mas ditadores, terroristas e fanáticos de todos os tipos sempre odiaram o humor porque ele tem uma capacidade única de corroer certezas. O humor é uma sombra que acompanha qualquer discurso de verdade absoluta, e é justamente isso que o torna tão perigoso para quem leva a si mesmo a sério demais.
RAP passeia pela história da comédia com uma erudição que nunca pesa. Ele cita Roland the Farter, Ronnie Corbett, Mark Twain, Bill Hicks, Dario Fo, Rabelais — uma seleção (de vários continentes) que parece saída de um jantar onde cada convidado tenta explicar por que o riso é universal. O livro mostra que o humor atravessa séculos, países, línguas e contextos, sempre carregando o mesmo impulso: desafiar o medo, aliviar o peso da existência e, às vezes, simplesmente apontar o ridículo.
A influência de Umberto Eco aparece como eixo teórico e como piada interna. Eco sonhou escrever o grande tratado da comédia, fracassou, desistiu e acabou escrevendo “O Nome da Rosa”. RAP pega esse fracasso e transforma em combustível: se ninguém conseguiu explicar tudo, ele explica o que dá — e o que dá já é muito. Ele cita Eco dizendo que a comédia é reação humana ao medo da morte, e usa essa frase como chave para entender por que o humor é simultaneamente lúgubre e galhofeiro.
O livro também explora o humor como fenômeno corporal: o riso convulsiona, desfigura, tira o controle, aproxima do obsceno e afasta do sublime. RAP insiste que o humor não tem nada de idealizado — ele é físico, grotesco, desestabilizador.
Freud aparece novamente como patrono da ironia, com a piada do condenado à morte que diz “a semana está começando otimamente!”. RAP usa esse exemplo para mostrar que o humor é rebeldia, não resignação. É o eu afirmando prazer diante da crueldade das circunstâncias. A anedota de Freud assinando “Posso recomendar altamente a Gestapo a todos” reforça essa ideia: mesmo diante do horror, o humor é arma de sobrevivência psíquica.
O livro é, no fim, um ensaio que mistura teoria, história, autobiografia, ironia e melancolia. RAP não tenta criar uma teoria total — ele cria um mosaico, um banquete, um conjunto de reflexões que mostram que o humor é universal, necessário, contraditório e profundamente humano. Ele escreve sobre o riso, mas também sobre o medo, a morte, o fanatismo, a vaidade, a política, a fragilidade e a coragem. E faz isso com a leveza de quem sabe que explicar o humor é quase tão difícil quanto fazer humor — mas tenta mesmo assim, porque vale a pena.
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