Resenha | Amazônia Brasileira: Preservar para viver, responsabilidade mundial, de Samuel A. Hanan

O livro “Amazônia Brasileira: Preservar para viver, responsabilidade mundial”, publicado pela Valer Editora, e escrito pelo engenheiro, empresário e político (ex-vice governador) amazonense Samuel A. Hanan chega para lembrar ao leitor, através de seus capítulos, que a floresta não é só cenário de documentário com música suave e bichinho fofo.

O autor desmonta essa fantasia turística com a elegância de quem já viu de perto o que acontece quando o mundo inteiro quer usufruir da Amazônia, mas ninguém quer pagar a conta. Ele não perde tempo com discursos inflamados ou slogans bonitinhos: vai direto ao ponto, com números, dados e uma paciência limitada para quem acha que preservar a Amazônia é só postar foto de árvore no Instagram.

O autor apresenta a região como um colosso geográfico equivalente a 27 países europeus — e, ainda assim, tratada como quintal exótico por quem vive longe dela. Hanan insiste que a floresta beneficia o planeta inteiro, mas que o planeta inteiro finge não ouvir quando chega a hora de assumir responsabilidade. Ele deixa claro que não existe mágica: se, inclusive, outros estados usam os recursos naturais como se fossem brinde, então todo mundo deveria contribuir para manter o bioma vivo. A lógica é simples, mas aparentemente difícil demais para quem prefere discursos a ações.

Um dos pontos mais ácidos do livro é a crítica ao romantismo que transforma a Amazônia em cartão-postal e ignora o sujeito que vive lá — aquele da capa, com lamparina, sem energia, sem progresso e sem qualquer perspectiva de cidadania. O autor esfrega na cara de quem o lê que não adianta defender a floresta se você esquece o povo que mora dentro dela. Ele trata essa negligência como o grande absurdo nacional: o mundo inteiro fala da Amazônia, mas quem vive nela continua relegado à própria sorte.

O autor também desmonta equívocos da política ambiental, mostrando como decisões mal pensadas, burocracias inúteis e discursos vazios criaram uma região cheia de potencial, mas travada por falta de planejamento real. Ele não se limita a apontar falhas: apresenta caminhos possíveis, sem fantasia, sem promessas mirabolantes, sem aquela mania de achar que tudo se resolve com decreto e boa intenção. Hanan fala de conservação, mas também de desenvolvimento, e insiste que preservar não significa congelar a região no tempo como se fosse peça de museu.

O livro aborda ainda os diferentes grupos que compõem a Amazônia — indígenas, ribeirinhos, caboclos — e as cidades que convivem com desafios que o resto do país raramente entende. Hanan trata essas populações como parte essencial da equação, não como figurantes para enfeitar discurso ambiental. Ele insiste que qualquer política séria precisa considerar essas pessoas, porque são elas que lidam diariamente com os efeitos das decisões tomadas longe dali.

A visão internacional também ganha destaque. O autor defende que países que se beneficiam da floresta deveriam contribuir para sua preservação, e não apenas enviar elogios em conferências. Ele trata essa responsabilidade global como algo óbvio, mas que o mundo insiste em fingir que não existe. É quase uma aula de paciência: o autor explica, argumenta, mostra dados, e ainda assim sabe que boa parte dos leitores vai continuar achando que preservar a Amazônia é problema exclusivo do Brasil.

No fim, “Amazônia Brasileira: Preservar para viver, responsabilidade mundial” é um livro que desmonta ilusões, expõe contradições e joga luz sobre uma região que o mundo inteiro adora romantizar, mas raramente entende. Samuel Hanan entrega uma análise ácida, direta e sem floreio, mostrando que preservar a Amazônia exige menos discurso e mais responsabilidade — especialmente de quem vive longe dela, mas depende dela todos os dias.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *