O Dia Em Que Selma Sonhou Com Um Ocapi (por Casal Doug Kelly)

“O Dia Em Que Selma Sonhou Com Um Ocapi”, escrito por Mariana Leky, é um fenômeno desde 2017, vendendo mais de 600 mil cópias só na Alemanha. E não é difícil entender por quê. Trata-se de uma obra encantadora, estranha e deliciosamente local — daquelas que transformam uma vila anônima em um universo inteiro, cheio de magia discreta, superstições persistentes e personagens que parecem ter saído de um conto dos Irmãos Grimm, mas com problemas bem modernos.

O ocápi — esse híbrido improvável de zebra com girafa que vive no Congo — não deveria estar perambulando pelo oeste da Alemanha. Mas isso não é o que realmente preocupa Selma. O problema é que, toda vez que ela sonha com um ocápi, alguém morre. E quando uma senhora alemã começa a prever mortes com base em fauna africana, você sabe que a vila inteira vai entrar em modo pânico silencioso. Cada morador revisa sua própria vida, seus segredos, seus arrependimentos.

No centro da história está Luise – 10 anos de idade e a quem vemos crescer durante a leitura -, observadora oficial e neta de Selma. Sua mãe está ocupada demais com flores e com o vendedor de sorvete, o pai está em um relacionamento sério com seu psicanalista, então Luise se apoia em quem realmente importa: Selma, e Martin, o optometrista e amigo que sonha em ser halterofilista, mas parece mais preparado para levantar problemas do que pesos.

A profecia do ocápi abala Luise, mas a vida segue — como sempre segue nessas vilas onde tragédia e rotina caminham de mãos dadas. Ela se apaixona por um estranho, arruma um emprego e adota um cão-lobo fedorento e aparentemente imortal, porque todo romance alemão com realismo mágico precisa de um animal excêntrico. Enquanto isso, o pai viaja pelo mundo distribuindo conselhos filosóficos como quem distribui cartões-postais.

E o mundo, claro, chega à vila: furtos, sabotagens, declarações de amor, negócios falidos. Nada épico, mas tudo profundamente suburbano.

A estranheza nunca está longe. A cunhada de Selma, Elsbeth, é atormentada por diabinhos fofoqueiros e jura ter cura para tudo — dor de dente, verrugas, morte. Até os personagens mais céticos dão uma espiada para o lado quando ouvem uma voz misteriosa. A prosa de Leky trata o cotidiano e o fantástico com o mesmo peso, transformando batatas fritas e licores de chocolate em pequenos rituais míticos, enquanto rumores e superstições ganham ares de verdade ancestral.

Essa mistura — aforismos, budismo, psicanálise, rabugice — impede que o livro escorregue para o folclórico exagerado. Leky observa sua comunidade com carinho e distância, acompanhando o envelhecer, o amadurecer e o passar do tempo com uma sensibilidade que nunca vira sentimentalismo barato.

O resultado é um romance que revela tristeza, humor e companheirismo com a mesma delicadeza com que Selma anuncia um sonho de ocápi. Um bálsamo lúcido em tempos turbulentos. E claro: o livro foi adaptado como filme em 2022, com o título “Was Man Von Hier Aus Sehen Kann” (What You Can See from Here), porque histórias assim pedem para ser vistas, não só lidas.

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