
O livro “O Aço Eterno – Uma Terra Digna de Heróis” (The Steel Remains, 2008), escrito por Richard K. Morgan e publicado pela Skull Editora é a primeira parte de uma trilogia que chega com cara de fantasia sombria tradicional, mas que de repente você percebe que está completamente obcecado por um guerreiro traumatizado, sarcástico, homossexual e perigosamente eficiente.
Ringil “Angeleyes” Eskiath — herói de Gallows Gap, portador da espada Ravensfriend e campeão relutante — está vivendo sua melhor vida decadente numa estalagem qualquer, bebendo, transando e evitando responsabilidades como um profissional. Até que sua mãe aparece. E, como toda mãe literária, ela traz problemas.
A prima de Ringil, Sherin, foi vendida como escrava. E aí pronto: o homem que estava feliz sendo um desastre ambulante reencontra propósito, raiva e motivação. Quando Ringil decide fazer algo, ele vira uma força da natureza — implacável, inabalável e com um vocabulário que faria um marinheiro sentir vergonha. Ele é amado como herói, mas também chamado de depravado e pervertido. Por quê? Porque ele é gay. E, convenhamos, protagonistas gays em fantasia sombria medieval são tão raros quanto dragões vegetarianos. Por isso, acompanhar Ringil é ousado e deliciosamente diferente.
Além de Ringil, acompanhamos dois outros pontos de vista: 1) Egar, o Matador de Dragões, líder de clã com mais testosterona do que bom senso; 2) Archeth, conselheira imperial, mestiça kiriath, inteligente, amarga e fascinante.
Eles são ótimos, mas vamos ser sinceros: ninguém brilha como Ringil. Ainda assim, os três têm um passado em comum, e Morgan vai soltando migalhas que deixam você curioso para ver como essas histórias antigas vão bagunçar o “presente”.
O mundo ambientado no livro é fantasia épica raiz: religiões, raças, magia, política, preconceito, violência e aquele clima de “nada vai dar certo, mas vamos tentar mesmo assim”. Há romance? Não exatamente. Ringil não é do tipo romântico, mas há relacionamentos LGBTQIA+ e cenas de sexo explícitas que deixam claro que Morgan não está aqui para fazer fantasia higienizada.
A leitura começa envolvente, mas lá pelos 60–70% o ritmo cai. Você pensa: “Ok, Morgan, e agora?” E então… ele entrega. O final é tão bom, tão intenso, tão cinematográfico, que você quase levanta da cadeira para aplaudir. O discurso final de Ringil é daqueles momentos que você quer ver adaptado para o cinema. As imagens, as implicações, o tom — tudo funciona.
Quando terminado, se entende por que tanta gente considera essa trilogia uma joia sombria subestimada. Ringil tem tudo para virar um dos grandes anti-heróis da fantasia moderna. E sim, esperamos que sua continuação “The Cold Commands”, seja traduzida e publicada imediatamente no Brasil, pois essa é a decisão correta.
Em geral, “O Aço Eterno” é brutal, violento, sujo, intenso, cheio de personalidade e com um protagonista que rouba a cena em todas as páginas. É fantasia sombria de verdade — sem filtros, sem concessões, sem medo de incomodar.
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