O Bolo do Presidente (por Peter P. Douglas)

O Bolo do Presidente (The President’s Cake AKA Mamlaket Al-Qasab, 2025), longa-metragem iraquiano de drama, distribuído pela Kajá Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 04 de junho de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 105 minutos de duração.

Assistir ao primeiro longa do diretor Hasan Hadi é como esperar um bolo simples de aniversário e descobrir que alguém colocou pimenta, cebola caramelizada e um galo vivo na receita. “O Bolo do Presidente” começa com uma vibe de aventura infantil, mas rapidamente lembra você de que está ambientado no Iraque da década de 1990 – no auge das sanções econômicas -, dois dias antes do aniversário de Saddam Hussein. Ou seja: nada vai ser tão inocente quanto parece.

As sanções são vendidas no noticiário como “alternativa civilizada à guerra”. O filme mostra o que isso significa na prática: transformar necessidades básicas em luxos inalcançáveis. É violência, só que com etiqueta diplomática. Em vez de bombas, fome. Em vez de explosões, escassez. Em vez de destruição imediata, destruição lenta. Treze anos de destruição lenta. A busca por farinha, ovos e açúcar vira uma epopeia trágica, quase mitológica, só que sem deuses ajudando.

Nossa protagonista Lamia, é uma menina de nove anos que vive com a avó Bibi, uma senhora que claramente já viu mais do que gostaria. A escola faz um sorteio para escolher quem vai preparar o bolo oficial do presidente — porque aparentemente isso é uma atividade escolar normal — e Lamia é a escolhida. Bibi então leva a neta à cidade para comprar os ingredientes, acompanhadas de Saeed – amigo de escola -, e de Hindi, o galo de estimação de Lamia, que funciona como apoio emocional, bússola moral e, ocasionalmente, alívio cômico.

Mas aí vem o plot twist: Lamia descobre que Bibi está planejando deixá-la com conhecidos da cidade porque acha que não consegue mais cuidar dela. A menina, horrorizada, foge. Saeed, cujo pai é mendigo, não hesita em roubar para ajudar; Lamia tenta vender o relógio do pai falecido. É tudo muito doce, muito triste e muito caótico ao mesmo tempo.

A primeira metade do filme parece um daqueles longas antigos, quase ingênuos, com crianças vivendo aventuras. Mas aí o roteiro lembra que está no Iraque sob um regime autoritário. De repente, temos crianças gritando “Viva Saddam Hussein!” na sala de aula, um noivo cego por bomba americana fazendo piada sobre casamento arranjado, e um clima de “isso devia ser sério, mas o tom está estranho”. A obra tenta equilibrar inocência infantil com trauma político — e às vezes parece que está carregando ingredientes demais no mesmo bolo.

O filme, por vezes, pode acabar parecendo um pouco arrastado. As buscas pelos ingredientes se misturam com encontros fortuitos demais para serem críveis. Personagens aparecem e reaparecem como se o Iraque fosse do tamanho de um quarteirão. Há momentos sombrios, há momentos quase cômicos, e há momentos que parecem ter vindo de outro filme completamente diferente. Os atores são competentes, especialmente os dois jovens protagonistas, que seguram bem o drama.

O final? Não espere alívio. Não espere catarse. Não espere que o filme te dê a mão. Ele não dá. Porque, para muita gente no Iraque, não houve final feliz. Não houve fechamento. Não houve “superação”. Hadi te deixa com exaustão, com peso, com a sensação de ter vivido um único dia dentro de algo que nunca acabou.

Vale mencionar um detalhe impressionante: este é o primeiro filme iraquiano exibido em Cannes. E não é um filme “iraquiano” no sentido genérico. É iraquiano até o osso. Hadi recusou financiamento que exigia filmar fora do país. Ele queria os pântanos da Mesopotâmia, queria as ruínas, queria a história viva. Ele queria filmar onde a civilização começou — e onde, ironicamente, ela parece ter sido esquecida. Ele montou a produção praticamente do zero, num país sem infraestrutura cinematográfica, com não atores, e ainda assim ganhou prêmios.

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