Novo Atendimento, 2026 (por Peter P. Douglas)

Existe uma linha tênue entre a irritação e a comédia que define a nossa vida hoje em dia, e é exatamente aí que Tales Ordakji brilha no curta-metragem nacional “Novo Atendimento” (2026). A obra, com seus 12 minutos de duração, tem circulado e vencido prêmios em festivais do mundo todo justamente porque traduz aquela neurose coletiva que todo mundo conhece: a briga com a burocracia digital.

A história é simples e dolorosamente familiar. Acompanhamos Lipe (Tales Ordakji), um cara viciado em café que só quer pedir um simples expresso, mas acaba preso num labirinto kafkiano. A grande piada trágica é que, mesmo estando de frente para uma atendente de carne e osso (Cris Eifler), o acesso a ela é bloqueado por um muro invisível de senhas, robôs e exigências tecnológicas. E tudo se repete quando muda de cafeteria e atendente (Cibele Gonçalves).

O mais legal é que o curta foge daquele papo chato ou moralista contra a tecnologia. Ele foca no comportamento e na nossa exaustão diante de sistemas que foram feitos para cortar custos e lucrar mais, trocando qualquer traço de humanidade por uma interface fria. É por isso que a obra faz tanto sucesso fora do Brasil: a raiva de lidar com atendimento automatizado é universal.

Tales Ordakji faz um trabalho incrível acumulando funções — roteiro, direção, montagem e atuação — entregando um protagonista exausto na medida certa. A gente ri da situação porque é absurda, mas o riso engasga na hora porque todo mundo já passou raiva tentando falar com um suporte online que não resolve nada. No fim das contas, “Novo Atendimento” usa uma situação super boba do dia a dia para fazer um raio-X perfeito de uma sociedade que está hiperconectada, mas completamente incomunicável.

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