
Mil Luas (2024), longa-metragem nacional de drama, distribuído pela Elo Studios, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 23 de julho de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 73 minutos de duração.
A protagonista de 80 anos, Chiara (Thaia Perez) é apresentada como o pacote completo de estereótipos: imigrante italiana, logo tem restaurante de massas; sobreviveu à guerra, então mora numa casa com porão gigante; gosta de flores, então veste estampas florais da cabeça aos pés; é “forte”, então anda de lambreta como se isso bastasse para definir alguém.
A diretora Carina Bini aposta numa estética que parece saída de um catálogo, tratando tudo de forma artificial. Todos os ambientes soam claramente falsos e os figurantes parecem perdidos, como se estivessem testando marcação. Cada personagem recebe um único traço e é obrigado a repeti-lo até a exaustão. A filha só existe para se preocupar; o guru só existe para soltar frases prontas; ninguém respira fora da função que lhe foi atribuída.
O filme parte do princípio de que o público não entende nada sozinho. Por isso, tudo é dito, repetido e sublinhado. Personagens explicam uns aos outros fatos que todos já sabem, apenas para garantir que o espectador não perca nada. Chiara narra sua própria história para uma amiga que já conhece tudo. A filha repete o óbvio para o cozinheiro. A protagonista exclama objetos como se estivesse apresentando um programa infantil. A sensação é de que cada informação precisa ser quebrada em pedaços minúsculos, como se o público fosse incapaz de acompanhar algo simples.
Apesar da suposta homenagem aos idosos, o filme trata a velhice como algo que precisa ser infantilizado. E, ironicamente, a única criança da história é tratada como objeto de cena. Nada nela é explorado. Nem mesmo o básico: o que sente, o que pensa, o que percebe. É apenas um corpo colocado ali.
Enquanto isso, a trilha sonora tenta compensar tudo o que o roteiro não consegue transmitir. Há música demais, usada como muleta emocional. Para cada emoção, uma canção óbvia. Para cada momento, uma marcação sonora que tenta empurrar o espectador para sentir algo que o filme não constrói, mesmo que não combine com nada do que está acontecendo.
O filme não sabe como quer retratar Chiara. Ora a trata como alguém que precisa de cuidados, ora como alguém jovem demais para ser contida. Ora como figura admirável, ora como alguém que deve ser colocada num asilo. A oscilação revela a falta de clareza sobre o que significa envelhecer — e sobre como lidar com isso sem cair em caricatura.
“Mil Luas” não encara a imigração como ela é, mas como gostaria que fosse: doce, charmosa, temperamental, cheia de nhoque perfeito e frases em italiano. Também não encara a velhice como ela é: cheia de dores, contas, memórias difíceis, esquecimentos, limitações. Prefere esconder tudo atrás de cores fortes, cenários artificiais e música constante. No fim, tenta homenagear aquilo que não consegue realmente enxergar.











