
O espectador que entra para ver o espetáculo teatral “Elas São de Matar”, escrito e dirigido por Dan Rosseto, achando que vai assistir a uma comédia sobre mulheres maduras, amizade e assassinato, rapidamente percebe que caiu numa armadilha: a peça se apoia numa quase estrutura de misandria.
Algumas piadas funcionam, é verdade — mas quando o texto tenta arrancar risadas à força, o efeito é tão artificial quanto o cadáver enrolado no tapete. A premissa, que poderia também render um suspense interessante, vira um festival de exageros que nem sempre se sustentam, apesar das excelentes atuações que tentam salvar o material limitado.
Quatro amigas inseparáveis se veem em uma noite de bingo que foge do controle. A revelação, aos poucos, de que uma delas cometeu um assassinato e existe um cadáver escondido no banheiro – um conhecido de todas elas – é o tipo de reviravolta que faria valer cada minuto em cena, valeria… mas não vale!
O elenco — Nany People, Angela Dippe, Michele Muniz e Laura Proença — entrega tudo o que pode, mesmo quando o texto insiste em transformar qualquer nuance masculina em motivo de chacota. O humor ácido, que deveria servir para discutir etarismo, sexualidade, entre outros assuntos, às vezes escorrega para um ressentimento caricatural que empobrece o debate. A inspiração do diretor em Pedro Almodóvar aparece, sim, mas diluída numa obsessão por ridicularizar parceiros e ex-parceiros, como se isso fosse suficiente para sustentar a dramaturgia.
A direção de Rosseto mantém o ritmo acelerado, mas não consegue mascarar o fato de que algumas situações são tão forçadas que o riso simplesmente não vem. A construção das personagens é cuidadosa, e o elenco claramente tem química — a ponto de brigar por mudanças no texto — mas nem isso impede que certos momentos soem como panfletagem disfarçada de piada. O caso de Nany People recusando um final submisso para sua personagem é emblemático: há força nas interpretações, mas o texto parece querer provar uma tese em vez de contar uma história.
No fim, “Elas São de Matar” é uma comédia afiada, sim, mas também apela ao transformar homens em caricaturas descartáveis para facilitar a narrativa. A leveza com que trata violência, golpes e relações tóxicas funciona em alguns trechos, mas perde impacto quando o humor vira munição unilateral. O público sai do teatro entretido, talvez até encantado com a energia das protagonistas, mas também com a sensação de que a peça poderia ser ainda melhor se confiasse mais na inteligência do espectador e menos na ideia de que ridicularizar qualquer tipo de figura automaticamente gera graça.
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