
Aquele Que Viu O Abismo (2024), longa-metragem nacional experimental, distribuído pela Embaúba Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 30 de julho de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 70 minutos de duração.
Antes de qualquer coisa, é importante deixar claro que, se trata de uma obra experimental, ou seja, não esperem uma condução tradicional nem de roteiro e nem de direção. É aquele tipo de filme que olha para a Epopeia de Gilgámesh (na qual se inspirou e cujo título original em acádio pode ser traduzido como “Aquele Que O Abismo Viu”), dá uma risada curta e pensa: “e se eu pegasse esse texto milenar (originário da Mesopotânia) e jogasse dentro de um pesadelo futurista entre Brasil e China, com paranoia, assassinatos, lasers, delírio e uma corporação prometendo vida eterna?”. O resultado é uma obra que não tem a menor intenção de ser compreendida de maneira linear — e faz questão de deixar isso claro desde o primeiro minuto.
A estrutura nasce dentro de um pavilhão gigantesco, abarrotado de sobreviventes de uma civilização que implodiu. Nada ali é acolhedor: é um depósito humano que parece ter sido montado por alguém que desistiu da arquitetura no meio do curso. Esse espaço funciona como símbolo de escassez, colapso e abandono, e já prepara o espectador para o fato de que o filme não está interessado em conforto narrativo.
No centro desse caos está X, interpretado por Negro Leo, um “xamã contemporâneo” que parece ter sido jogado no meio de uma conspiração global sem manual de instruções. Ele vive entre visões, delírios, perseguições e assassinatos que surgem como se fossem extensões de sua própria mente. X atira em silhuetas, em projeções, em figuras que talvez nem existam — e o filme não faz questão de esclarecer. A paranoia é o combustível, e a sanidade é um luxo que ele claramente não tem.
A antagonista da vez é a ProLife, uma corporação multinacional que promete vida eterna como se estivesse vendendo plano de celular. É a típica entidade que mistura marketing agressivo com opressão institucional, recrutando civis com promessas que soam mais como armadilha do que como esperança. X se vê encurralado por essa empresa, que funciona como metáfora do controle corporativo absoluto — aquele que transforma indivíduos em peças descartáveis.
A trilha sonora, assinada pelo próprio Negro Leo, é parte da espinha dorsal do filme. O som aciona imagens, distorce percepções, cria ritmo e desorienta. É uma obra para ver e ouvir, mas não no sentido tradicional — aqui, o som funciona como gatilho para o delírio, como se cada ruído fosse capaz de reconfigurar a realidade.
Ava Rocha surge como Ishtar, uma presença ritualística que parece atravessar o filme como entidade. Ela desacelera a narrativa, depois acelera, reorganiza o fluxo das imagens e cria uma pausa mística no meio da confusão. Sua aparição funciona como um ponto de recalibração, quase um rito dentro da própria obra.
Há também a imagem recorrente de um corpo feminino desenhado por lasers azuis e vermelhos, que cai morto como se fosse replicante de “Blade Runner” (1982) em versão experimental. Essa figura retorna como glitch, como falha no sistema nervoso da narrativa, reforçando a sensação de que nada ali é estável.
A jornada geográfica entre São Paulo, Xangai e Pequim adiciona camadas culturais e sensoriais. A narração de Clara Choveaux costura esses espaços, criando uma sensação de deslocamento constante — como se X estivesse sempre em trânsito, sempre fora de lugar, sempre à beira do colapso.
A imagem da arma apontada para a cabeça é o símbolo máximo do filme: o delírio expandido, a tensão entre lucidez e desintegração. É a metáfora do estado mental do protagonista e, de certa forma, do próprio filme, que se equilibra entre caos e controle, entre improviso e montagem.
E aqui está o ponto crucial: não existe roteiro. Não existe plano de filmagem. Tudo foi registrado no acaso, com câmera na mão, e depois montado por João Dumans e Gregorio Gananian em uma estrutura fragmentada que exige que o espectador complete o sentido.
“Aquele Que Viu o Abismo” não é para quem busca história linear, personagens tradicionais ou respostas claras. É para quem aceita entrar em um labirinto sensorial e sair sem saber exatamente o que aconteceu.
















