
Quando a vida é moldada mais pela ausência do que pela presença, é fácil perseguir fantasmas em vez de algo concreto — e terminar com as mãos vazias. Paraíso – Entre Duas Margens (Paradise, 2026) parece ter sido construído exatamente sobre essa ideia. O diretor Jérémy Comte, premiado no Oscar pelo curta “Fauve” (2019), passou quase uma década preparando sua estreia em longas-metragens.
O filme conecta personagens do Canadá e de Gana numa narrativa tão elaborada que às vezes parece mais um exercício de montagem do que uma história. O enredo é magro, mas as intenções são sinceras: o diretor não julga ninguém, nem as culturas que retrata. O problema é que essa “simetria humanista” também dilui tudo — quando se fala de necessidades humanas em geral, o resultado é um quadro psicológico tão genérico que quase não tem autor por trás.
Dividido em três capítulos, o filme começa numa noite azulada e mística na costa de Gana — névoa, atmosfera ritualística, uma aranha caminhando na praia como aviso dramático. Kojo (Daniel Atsu Hukporti), adolescente que perde o pai pescador para o mar, junta-se a um grupo ilegal para sobreviver. Não vende drogas nem armas, mas sua ocupação — revelada mais tarde — está longe de ser inocente. Do outro lado do Atlântico, Tony (Joey Boivin Desmeules), outro adolescente sem pai, viaja com a mãe solteira, Chantal, que mantém um romance à distância com um capitão misterioso. Tony, claro, fantasia que esse homem seja o pai que nunca conheceu. Logo fica evidente o que une esses personagens: todos querem estabilidade e conexão, independentemente de classe, país ou contexto. A imagem inicial — pobres buscando dinheiro, ricos buscando amor — é desmontada no final, mas não sem antes passar por todos os clichês possíveis.
O diretor filma tudo com competência, alternando cenas vibrantes com observações mais delicadas sobre os personagens. Ele tenta defini-los pela música que ouvem, pela forma como se movem, pelas relações que constroem. Kojo e Tony querem autonomia, mas a juventude e a falta de perspectiva os esmagam.
O maior problema é a filosofia do filme, que nunca se decide. O diretor e o corroteirista Will Niava parecem indecisos sobre o que determina o destino humano: escolhas individuais, contexto social ou alguma força mística que se manifesta como oceano, fogo e vento. O filme flerta com todas as opções, mas não se compromete com nenhuma. É como se quisesse ser profundo sem escolher qual profundidade explorar.
Ainda assim, nada disso impede “Paraíso – Entre Duas Margens” de ser movido por ambição e boa intenção. O caminho para esse “paraíso” é pavimentado por motivação e desejo — mesmo que o filme, no fim, não saiba exatamente qual paraíso está tentando alcançar.
















