Apenas Coisas Boas (por Peter P. Douglas)

Apenas Coisas Boas (2025), longa-metragem nacional de romance e drama, distribuído pela Olhar Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 25 de junho de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 104 minutos de duração.

“Apenas Coisas Boas” é dividido em duas partes — não porque isso faça sentido narrativo, mas porque o próprio filme parece ter decidido mudar de humor no meio do caminho. Na primeira metade, conhecemos Marcelo (Liev Carlos), que desfila por Goiás como se estivesse participando de um comercial de perfume ambientado no deserto de Nevada. Ele usa óculos escuros e uma jaqueta de couro digna de inverno europeu, tudo isso sob o sol brasileiro.

Logo depois, surge Antônio (Lucas Drummond), cujas camisas coladas ao corpo parecem ter sido escolhidas para reforçar um ideal de masculinidade importado direto de algum catálogo norte‑americano. Nada ali lembra a vida rural brasileira, mas já nos mostra a plasticidade escolhida pelo diretor Daniel Nolasco para imprimir um tom quase onírico a obra. Isso explica o sangue falso, o arco‑íris dramático durante a perseguição e a coleção de figurinos que, em mãos menos habilidosas, viraria um desfile do Village People com roteiro de Brokeback Mountain.

O filme se passa num universo onde a lógica tira férias. Marcelo é gravemente ferido, mas ninguém cogita hospital. Mortes acontecem, mas a polícia parece ter sido abolida por decreto. Antônio produz queijo e leite para compradores invisíveis, talvez imaginários. Tudo se resolve entre os próprios personagens, como se o mundo externo fosse apenas decoração. O real aparece só para dar um toque de contexto, mas nunca o suficiente para atrapalhar a novela interna.

Essa primeira parte é pura entrega ao melodrama, sem vergonha nenhuma. Em poucos minutos, os amantes já se encontraram, se apaixonaram, enfrentaram inimigos e decidiram ficar juntos. É rápido, exagerado e funciona.

Aí chega a segunda metade… e o filme resolve virar outra coisa. De repente, damos um salto no tempo e Antônio (Fernando Libonati), aparece com um ar introspectivo. O romance vira mistério. Surge investigação policial. Entra em cena uma empregada invasiva (Renata Carvalho), um cachorro cego e um assistente musculoso que parece ter sido contratado exclusivamente para causar distrações. A paixão do início some, substituída por um clima mais ácido. Nolasco troca o romance idealizado por relações mais duras, quase como se estivesse dizendo: “Lembra daquele amor bonito? Pois é, acabou”.

A narrativa começa a sugerir que a morte preserva as pessoas, enquanto a vida faz o favor de desgastar tudo. Em resumo: morrer une, viver separa. Uma mensagem bem animadora…

Preciso admitir: tive dificuldade em aproveitar essa segunda parte como aproveitei a primeira. Problemas de som, abandono de cachorro cego e nudez jogada sem propósito não ajudam.

No fim das contas, Nolasco entrega um filme que certamente vai dividir opiniões. Nem todas as ousadias se justificam, mas a primeira metade é tão envolvente que, mesmo com a queda brusca depois, “Apenas Coisas Boas” ainda merce uma chance de ser visto.

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