A Professora de Piano (por Peter P. Douglas)

A Professora de Piano (La Pianiste, 2001), longa-metragem francês de drama erótico, distribuído pela Filmicca, estreia, em versão restaurada, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 30 de julho de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 131 minutos de duração, em comemoração aos 25 anos de seu lançamento original.

O filme, dirigido pelo austríaco Michael Haneke, é uma adaptação cinematográfica do livro homônimo de 1983, da escritora ganhadora do Prêmio Nobel Elfriede Jelinek. Nele, uma professora que prefere a dor como método, procura o aluno capaz de corresponder ao padrão que ela mesma definiu. O sádico que acha estar no comando é só figurante, pois quem dita o percurso é o masoquista. Se alguém quer ser conduzido, melhor aprender a ensinar. A “Professora de Piano” sabe disso. E sabe que qualquer processo de ensino carrega seus prazeres tortos e suas dores calculadas.

Erika Kohut (Isabelle Huppert) dá aulas em um conservatório em Viena. Erika quase virou pianista de concerto, mas ficou pelo caminho. Sua vida pessoal também emperrou. Divide um apartamento minúsculo com a mãe (Annie Girardot), que administra tudo como se a filha fosse uma extensão da casa. O pai, morto em um hospital psiquiátrico, é assunto evitado. O tema recorrente é juntar dinheiro para comprar um imóvel. A disciplina é o idioma da casa.

No conservatório, não é muito diferente. Alunos esperam horas por uma chance mínima: choram quando acham que falharam e correm para ver listas de aprovados como se isso ainda tivesse algum peso no mundo. Erika permanece impassível. Treina futuros músicos para ultrapassá-la, e isso basta. Afeto não entra no contrato.

O conflito começa quando essa impassibilidade encontra algo que a desloca. Tudo inicia com uma porta. Erika entra em casa com movimentos calculados, o corpo rígido, o rosto sem expressão. Ela diz que estava caminhando depois de um dia de aulas. Sua mãe a acusa de mentir. Nada é confirmado. Outras escapadas aparecem: cabines de sex shop, pornografia, lenços sujos que ela leva ao rosto sem alterar a expressão; rondas em drive-ins atrás de casais; urina ao lado de carros; compras de vestidos que nunca usa.

A mãe reage às compras como se fossem ameaça. Comprar significa querer ser vista, o que para ela é sinônimo de perder a filha para qualquer coisa que não seja a rotina sufocante que compartilham. A primeira cena termina com Erika arrancando tufos de cabelo da mãe. Depois, choram, se abraçam, tomam café.

A primeira relação do filme é essa: maternidade como vínculo fadado ao fracasso. Um ensino que nunca será retribuído. Um afeto que existe para ser ultrapassado. A violência entre as duas é extrema, mas cotidiana. O filho como ídolo que custa a vida da mãe — clichê, mas verdadeiro.

Outra porta, outra interrupção: surge a segunda relação. Erika e a mãe entram no prédio dos Klemmer, onde Erika tocará para convidados ricos. Um jovem loiro entra atrás delas e elas o ignoram e fecham a porta do elevador na cara dele. Ele sorri, sobe correndo e segura a porta para elas. O rapaz é Walter Klemmer (Benoît Magimel). Belo, mas com algo que incomoda. Seu charme tem um fundo de ameaça. Quem conhece Haneke reconhece o tipo.

Como outros personagens masculinos recorrentes do diretor, Walter parece vazio. Persegue Erika como aluno e como amante. Na música e na sedução, é virtuoso demais para ser confiável e ao mesmo tempo parece acreditar no que faz. Erika finalmente diz a Walter o que quer. Tranca-o no quarto e o obriga a ler suas fantasias em voz alta. A cena espelha suas aulas de piano.

O rapaz que ela quer dominar primeiro se irrita, depois se enoja, e diz isso. Mesmo assim, ela consegue plantar suas fantasias nele. Ele enlouquece com isso. No fim, Walter afirma que foi ela quem o levou ao encontro final e violento. O filme deixa em aberto quem feriu quem — desastre ou consumação. Haneke não entrega respostas.

A dúvida sobre se Haneke é mais sádico ou masoquista permanece. Seus filmes causam desprazer deliberado, mas também exigem disciplina. “A Professora de Piano” evita grandes explicações sociológicas. Ao apresentá-lo a um espectador que deseja sofrer assistindo algo assim, tenta-se transformá-lo em parte do processo. O paradoxo é que isso funciona.

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