Resenha | Viagem no País da Crônica de Humberto Werneck

A obra “Viagem no País da Crônica”, escrita por Humberto Werneck e publicado pela editora Tinta da China Brasil, é aquele tipo de livro que lembra ao leitor que a crônica brasileira nunca foi “patinho feio” de coisa nenhuma — e que, quando bem feita, vale mais que muito romance que se leva a sério demais.

Humberto Werneck pega esse gênero que vive entre o jornal e a literatura, entre o improviso e a precisão, e transforma numa viagem por temas, épocas, autores e obsessões que moldaram a crônica como uma das formas mais brasileiras de escrever.

A proposta do livro é simples e deliciosa: percorrer o ano, de janeiro a dezembro, como se cada mês fosse uma estação onde cronistas desembarcam para falar de tudo — absolutamente tudo. Eclipse, uísque, mar, morte, fé, fotografia, chuva, golpe de Estado… nada escapa. A crônica, como Werneck lembra, nasce dessa liberdade: o cronista está sentado no meio‑fio, olhando o mundo passar, escrevendo com pressa e sem pretensão de eternidade — e, justamente por isso, acaba capturando o que o Brasil tem de mais vivo.

Werneck funciona como guia turístico de um país que só existe dentro das crônicas. Ele costura textos, cita autores: Clarice Lispector, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Lima Barreto — todos aparecem como habitantes desse território literário que mistura melancolia, humor, observação afiada e uma certa preguiça charmosa que só cronista sabe usar a seu favor.

O livro nasceu das colunas que Werneck publicou no Portal da Crônica Brasileira, do IMS, ao longo de quatro anos (2018-2021). São textos curtos, descontraídos, mas cheios de informação. Ele contextualiza historicamente, comenta estilos, aponta peculiaridades e mostra como cada autor moldou o gênero à sua maneira, transformando o banal em arte. E, ao fazer isso, entrega um livro que é ao mesmo tempo homenagem, mapa e celebração de uma das formas mais livres de escrever que já existiram no país.

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