
“32 – Um homem para cada ano que passei com você”, de Isabel Dias, é o tipo de livro que chega com a sutileza de alguém que cansou de ser enganado, olhou para a própria vida, fez as contas e decidiu que estava na hora de transformar a confusão conjugal em projeto pessoal. Nada de chorar no banho, nada de playlist melancólica: Isabel, de cinquenta e poucos anos (idade que ela nunca revela com precisão) pega os 32 anos de casamento, soma as traições do marido e conclui que a matemática da vingança afetiva pode ser bem criativa.
A autora começa apresentando sua vida pré-terremoto: casamento estável, três filhos, carreira consolidada, rotina organizada — tudo funcionando como manda o manual da “vida adulta bem comportada”. Até que descobre que o marido estava colecionando traições como quem coleciona figurinhas. Sem remorso, sem pausa, sem sequer o cuidado de ser discreto. A partir daí, Isabel decide que, já que o casamento virou estatística, ela também pode brincar com números: conhecer 32 homens, um para cada ano que passou ao lado do marido.
O livro não tenta transformar essa decisão em cruzada moral ou tese acadêmica. Isabel deixa claro que não está em busca de revanche épica nem de destruir a vida do ex. Ela quer recuperar o tempo que deixou escorrer enquanto acreditava que estabilidade era sinônimo de felicidade. E, ao longo dos encontros, ela vai descobrindo que a própria identidade estava soterrada sob décadas de rotina, medo, culpa e aquela velha crença de que mulher madura deve se comportar como se tivesse assinado contrato de recato.
Cada capítulo funciona como uma espécie de diário confessional, onde Isabel relata encontros, conversas, fantasias, frustrações e descobertas — sempre preservando a identidade dos envolvidos, porque ninguém merece virar personagem involuntário de livro alheio. Ela descreve homens interessantes, homens insuportáveis, homens que renderam boas histórias e homens que deveriam ter sido deixados no anonimato da internet. E, entre um encontro e outro, ela vai reconstruindo a própria autoestima, percebendo que não é a mulher apagada que acreditou ser durante 32 anos, nem a musa idealizada que alguns parceiros tentam enxergar. Ela é algo no meio disso, algo que estava esperando para ser descoberto.
O livro também brinca com a estética das capas: são 32 versões diferentes, cada uma com uma mulher real fotografada de costas, recriando o famoso retrato de Simone de Beauvoir. Essas mulheres compartilham suas próprias histórias de traição nas orelhas do livro, criando uma espécie de coro silencioso que reforça que Isabel não está sozinha — há muitas outras vivendo dramas semelhantes, só que sem coragem (ou disposição) para transformar tudo em literatura.
Uma coisa que fica clara no livro é o humor ácido, a honestidade desconcertante e a forma como a autora transforma dor em movimento. Alguns podem enxergam libertação, outros ousadia, outros loucura — mas todos vão concordar que Isabel não escreveu para agradar ninguém. Ela escreveu para se reconstruir.
No fim, “32 – Um homem para cada ano que passei com você” é um livro sobre recomeço, mas não aquele recomeço romântico que termina com flores e música suave. É um recomeço prático, direto, às vezes caótico, às vezes divertido, mas sempre humano. Isabel transforma uma traição devastadora em uma jornada de autodescoberta que desafia tabus, incomoda moralistas e dá voz a mulheres que passaram décadas acreditando que liberdade era coisa para gente mais jovem.
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