Possum, 2018 (por Peter P. Douglas)

“Possum” (2018) acompanha Philip (Sean Harris), um marionetista melancólico de meia‑idade, que volta para sua cidade natal, no norte da Inglaterra, depois de um escândalo não especificado. Ele sempre carrega, com muito cuidado, uma maleta misteriosa.

Na casa da família, suja e abandonada, vive Maurice (Alun Armstrong), um velho cuja presença já é o bastante para deixar qualquer um desconfortável. A relação entre os dois protagonistas é tensa, silenciosa e carregada de algo que o filme só revela aos poucos — e que, quando revela, faz tudo se encaixar de forma dolorosa.

Desde o início, Philip tenta desesperadamente se livrar de “Possum” (Gambá: que dá nome ao filme). É revelado que Possum, o “monstro” dentro da maleta é, na verdade, uma marionete bizarra com pernas de aranha e a cabeça de um manequim. Philip tenta destruí-la, jogá-la no rio, abandoná-la… mas ela sempre volta. Sempre. Como se fosse um trauma!

Paralelamente, a cidade está em alerta devido ao desaparecimento de um adolescente. O comportamento bizarro de Philip faz com que o público (e a polícia local) suspeite que ele seja o sequestrador. A obra mantém o mistério sobre o que está acontecendo durante um bom tempo.

No clímax, Philip decide encarar a criatura (seus demônios), e resolve entrar no comôdo da frente da casa que até então era expressamente proibido. Logo, é atacado por uma figura mascarada. Após lutarem no chão, o agressor é desmascarado revelando-se ser seu “tio” Maurice.

Tio Maurice (que até então, não sabíamos qual parentesco possuía) revela que foi ele quem sequestrou o adolescente desaparecido (e outras crianças no passado). Ele estava usando o comportamento estranho de Philip para desviar a atenção das autoridades e culpar o sobrinho.

Philip reage, consegue dominar o tio e o mata, libertando-se fisicamente de seu abusador. Ele encontra o garoto sequestrado, vivo, dentro de um baú e o solta. O filme termina com Philip agachado no chão: ele se livrou de Maurice e da marionete, mas o trauma psicológico continuará marcado em sua mente.

“Possum” é simples em enredo, mas cheio de subtextos. Ele segue uma lógica onírica, com cenas fora de ordem, interrupções abruptas e imagens simbólicas: balões amarelos soltando fumaça, chuva negra, florestas retorcidas, a marionete sempre presente. O filme revela o boneco aos poucos, como se estivesse abrindo camadas da mente de Philip — e da nossa.

Algumas cenas parecem memórias fragmentadas, lugares vazios, ecos do passado. O filme quase não tem personagens humanos, o que o torna tão solitário quanto o próprio Philip. Mas isso não significa falta de personalidade: Sean Harris entrega uma atuação impressionante (durante os 85 minutos de duração), cheia de trejeitos infantis — olhar por cima do ombro, mãos juntas, postura encolhida — reforçando a ideia de que Philip é alguém cuja infância foi destruída e nunca reconstruída.

Os doces verdes que Maurice oferece a Philip funcionam como símbolo de manipulação — seja por coerção, seja por controle psicológico. O nome “Possum” (Gambá) também é significativo: gambás fingem-se de mortos quando assustados, exatamente como Philip faz quando o trauma o domina.

“Possum” é um filme feito para incomodar, para testar o limite do espectador — não pela violência explícita, mas pela maneira como tudo é construído para gerar desconforto psicológico. É a estreia do diretor Matthew Holness, e ele não entrega conforto em momento algum. Mas fica o aviso: o ritmo lento, o subtexto e possíveis gatilhos, não o tornam recomendável para todo tipo de público.

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