O Riso e a Faca (por Peter P. Douglas)

O Riso e a Faca (Laughter and the Knife, 2025), longa-metragem nacional de drama, distribuído pela Vitrine Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 30 de abril de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 215 minutos de duração.

Um homem viaja sozinho pelo deserto. O carro quebra — porque claro que quebra, carro em deserto é praticamente um convite ao desastre. Ele sai procurando ajuda e encontra uma mulher que lhe oferece comida e descanso, como se fosse uma fada madrinha da aridez. Assim começa “O Riso e a Faca, o segundo longa do diretor Pedro Pinho, que na sua “versão reduzida” tem só três horas e meia. A versão completa, exibida em Cannes, tem mais de cinco horas. Sim, CINCO. HORAS. É quase uma minissérie, só que sem intervalos e sem piedade.

Quando o título aparece, ainda estamos no meio das dunas, sem a menor ideia de quem é esse europeu perdido, o que está fazendo ali e por que decidiu atravessar a Mauritânia como se estivesse indo comprar pão. Sérgio — nome do personagem e do ator, Sérgio Coragem — chega à Guiné-Bissau, onde o português é língua oficial, mas falado com a mesma frequência que latim no supermercado.

Logo que ocorre sua chegada, a narrativa estabelece duas linhas centrais. A primeira é a dimensão material de sua missão: ele entra num projeto atravessado por interesses internacionais, pressões locais, disputas territoriais e argumentos técnicos sobre desenvolvimento. A segunda é a atmosfera de deslocamento do protagonista: Sérgio aparece como um estrangeiro que tenta se adaptar ao ritmo da cidade, às línguas, aos costumes e às formas locais de sociabilidade, mas nunca deixa de ser percebido como alguém de fora.

Nosso protagonista é um engenheiro ambiental português de uma ONG, que se vê pressionado por sua equipe para terminar um relatório de impacto ambiental que vai decidir o futuro de uma estrada, de uma reserva de hipopótamos em extinção e de várias comunidades. É o progresso, dizem. Progresso para quem? E aí surge Leonardo, o antecessor de Sérgio. No começo, ele é só “o cara que não terminou o relatório”. Depois, vira quase um fantasma pairando sobre tudo.

Mas apesar desse problema burocrático, Sérgio conhece Diára (Cleo Diára) por acaso, e sem entender nada do esquema dela, entrega a Gui (Jonathan Guilherme) um objeto misterioso que ela deixou no táxi que compartilharam. Pronto: está formado o triângulo principal.

Gui é um brasileiro queer que fugiu para a Guiné, mas continua perdido — geograficamente, emocionalmente e espiritualmente. Ele confessa isso a Sérgio durante uma das muitas saídas noturnas que aproximam os dois.

Gui e Diára arrastam Sérgio para dentro das comunidades de Bissau, onde ele começa a perceber que as desigualdades sociais e culturais não são apenas entre “ocidentais e africanos”, mas também entre os próprios guineenses. Ele escuta histórias de luta, resistência e memória — porque, Sérgio é um personagem que ouve mais do que age, mas não é uma escuta passiva. É aquela escuta de quem está tentando entender o mundo enquanto o mundo desmonta suas certezas.

O final? Nada de resolução clássica. Nada de respostas. Nada de “e viveram felizes para sempre”. O filme termina deixando tudo no ar: o destino do projeto, o que realmente aconteceu com Leonardo, o que Sérgio vai fazer diante da corrupção, das pressões e do fato de que já não pode fingir que é apenas um técnico neutro.

“O Riso e a Faca” do título resume bem a encruzilhada: – O riso é o espírito festivo, a alegria, a música, a vida pulsante que Diára e Gui mostram a Sérgio. – A faca é a luta pela terra, a resistência ancestral, e também a lâmina afiada da exploração que os estrangeiros trazem consigo — mesmo quando não percebem.

No fim, o filme deixa claro que nenhuma decisão é inocente: ficar, partir, amar, assinar, rejeitar — tudo tem peso. Tudo corta. Tudo ri. Tudo fere.

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