O Grande Arco de Paris (por Peter P. Douglas)

O Grande Arco de Paris (L’Inconnu De La Grande Arche AKA The Great Arch, 2025), longa-metragem francês de drama biográfico, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 03 de setembro de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 107 minutos de duração.

Em 1982, o presidente francês François Mitterrand decidiu que Paris precisava de mais um monumento para se juntar à Torre Eiffel e ao Arco do Triunfo — porque, claro, duas marcas registradas mundiais não eram suficientes. Ele lançou um concurso de design e, para surpresa geral, o vencedor foi o então desconhecido arquiteto — de 53 anos que era professor e só tinha construído quatro igrejas e a própria casa — dinamarquês Johan Otto von Spreckelsen, que apareceu com a ideia de um cubo de vidro e mármore de 100 metros de diâmetro. Um cubo. Para celebrar a humanidade e a paz. Ambicioso? Sim. Minimalista? Também. Fácil de construir? Nem um pouco.

A saga de sete anos entre a encomenda e a conclusão do projeto foi tão tumultuada que virou romance em 2016 (La Grande Arche”, de Laurence Cossé) e agora filme, adaptado e dirigido por Stéphane Demoustier (cujo o título original em tradução literal seria “O Desconhecido do Grande Arco”).

Von Spreckelsen é interpretado por Claes Bang, que aprendeu francês especialmente para o filme — e cuja pronúncia truncada combina perfeitamente com o personagem: um homem desconfortável, quieto, perdido em Paris e alternando francês, inglês e dinamarquês como quem tenta achar a saída de um labirinto linguístico. Quando o projeto começa, com a ajuda do supervisor governamental Jean‑Louis Subilon (um excelente Xavier Dolan) e do gerente de projeto Paul Andreu (Swann Arlaud), Von Spreckelsen revela um lado inesperado: obsessivo, intransigente, difícil.

O drama resultante é genuinamente absurdo — e muito menos ficcional do que parece. Você espera uma piada final, mas ela nunca chega. Em vez disso, o filme entrega um absurdo sem humor, o que o torna ambivalente e desconfortável. A maior parte do tempo é dedicada ao projeto arquitetônico: burocracia, reuniões, especificações, mármore de Carrara, mais reuniões, mais burocracia. Vemos um pouco da relação de Otto com sua esposa (ficcional) Liv (Sidse Babett Knudsen), uma fumante inveterada, mas 90% são conversas sobre o Arco. Subilon, Andreu e Mitterrand não têm vida pessoal — só papelada.

À medida que avança, o filme fica mais sombrio, lamentando a morte do idealismo e a pureza de uma visão criativa esmagada por decisões financeiras insensíveis. No final, a história se torna melancólica. Os personagens não mudam, o tom permanece constante, mas os eventos arrastam o longa entre momentos levemente divertidos, tensos e tristes.

À primeira vista, “O Grande Arco de Paris” parece impossível de vender: um drama francês absurdo sobre arquitetura e política não soa exatamente como diversão de sábado à noite. Mas há enorme mérito em sua contenção, paciência narrativa e atuações fortes. Além disso, revela um capítulo da história francesa do século XX que muita gente desconhece — tornando-se esclarecedor e, surpreendentemente, cativante. Uma obra original, peculiar e bem-sucedida.

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