
Dizem que tubarões são máquinas antigas: dentes, músculos e eficiência. “Do Fundo do Mar” (Deep Blue Sea, 1999) funciona exatamente assim. O filme se move sem parar e, de tempos em tempos, alguém vira refeição. Renny Harlin dirige com profissionalismo raro no gênero, entregando um thriller que não tenta ser mais do que é — mas faz o básico com extrema competência.
A premissa é simples: uma cientista (Saffron Burrows) desenvolve um método para usar tecido cerebral de tubarões no combate ao Alzheimer. Uma corporação financia a pesquisa e mantém uma estação em alto‑mar com tanques e laboratórios submersos. Um dos tubarões escapa e ataca um barco. O presidente da corporação (Samuel L. Jackson) visita a instalação e conhece o tratador de tubarões (Thomas Jane), o cozinheiro religioso (LL Cool J), além do restante da equipe.
Alguns desses personagens acabam no cardápio. Os ataques são intercalados com tentativas desesperadas de fuga, já que tempestades e explosões deixam a estação destruída e o grupo preso abaixo da linha d’água, cercado por pressão e tubarões.
O roteiro não tem compromisso com lógica. A ideia é que os cientistas aumentaram o cérebro dos tubarões cinco vezes, tornando-os inteligentes o bastante para decifrar a planta da estação, abrir portas estanques e agir em equipe. O problema óbvio — inteligência não gera conhecimento espontâneo — é ignorado. Não importa. Os tubarões são versões marinhas do MacGyver: existem para criar situações onde os personagens precisam improvisar, correr, lutar e sobreviver.
Jackson faz o papel sério. Thomas Jane assume as cenas de ação, mesmo que pareça capaz de prender a respiração por tempo impossível. LL Cool J é a surpresa: um cozinheiro com um papagaio como melhor amigo, que se esconde em um forno enquanto o tubarão tenta assá-lo a 500 graus.
O filme é repleto de sequências bem executadas. Segue o modelo de criaturas perseguindo humanos em corredores apertados, mas com ritmo e timing melhores do que a média. Os efeitos variam — alguns tubarões parecem digitais demais —, mas o suspense funciona.
E funciona principalmente pela surpresa. Há um momento específico em que o filme derruba qualquer expectativa de forma abrupta e brilhante, arrancando risos de choque do espectador. Num gênero saturado de previsibilidade, “Do Fundo do Mar” consegue manter o público BEM alerta.












