Crítica | A Ciumenta (por Casal Doug Kelly)

Quem assistiu à Renata Brás desferindo o bordão de “A Ciumenta” na “Praça é Nossa” anos a fio, irá, em sua peça homônima, esperar apenas uma sucessão de piadas fáceis sobre mulheres controladoras que espiam o celular do marido. Contudo, acabarão saindo do teatro com uma perspectiva bem diferente.

O monólogo, idealizado e interpretado pela própria atriz em parceria textual com Samira Ramalho, e supervisão da psicanalista Fabiana Guntovich, debaixo das ordens do diretor André Dias, consegue a proeza de transformar um estereótipo televisivo em um estudo de personagem surpreendentemente afiado, ainda que com muito humor e autodepreciação.

A premissa é o autoconhecimento, mas a jornada se revela um aprofundamento na neurose do ciúme, um sentimento que Renata tenta curar em si mesma ao se apaixonar perdidamente por um marido pouco atraente, um detalhe que adiciona um tempero a mais de realismo aos desastres amorosos relatados no palco.

A montagem, que transita entre o stand-up e a ficção pura, coloca o espectador diretamente no camarim da personagem, uma escolha cênica que elimina a quarta parede e transforma a plateia em confidentes involuntários. Esse artifício permite que a atriz dialogue com o público como se estivesse desabafando no bar, alternando entre anedotas reais de sua carreira e situações fictícias de puro desespero romântico.

A presença de vozes de astros como Cláudia Raia e Miguel Falabella enriquece o texto, mas é o talento cênico de Renata que realmente domina o palco. Ela, que construiu uma trajetória sólida transitando do balé para as adaptações tupiniquins de musicais da Broadway e para a dramaturgia pesada em peças como “Brilho Eterno”, utiliza a sua técnica para dar volume a uma mulher que, por fora, é apenas uma louca do ciúme, mas que, por dentro, enfrenta o pavor da rejeição e a insegurança da maturidade.

O trabalho de direção de André Dias mantém o ritmo ágil, impedindo que o espetáculo perca o fôlego nos momentos mais densos de reflexão. O espectador é enganchado pelos momentos de comédia, mas se vê obrigado a encarar questões que vão além das piadas sobre relacionamentos: a ansiedade, a autoestima e a maneira como moldamos a nossa sexualidade em função do nosso passado.

Renata encarna essa mulher que revive seus relacionamentos fracassados e o início tumultuado de sua carreira artística com ironia, transformando a própria dor em material de riso. A protagonista não apela para moralismos, apenas expõe as suas cicatrizes, mostrando que o ciúme não é um defeito de caráter isolado, mas um sintoma de uma insegurança muito maior e de uma carência de afeto que beira a obsessão.

No fim das contas, “A Ciumenta” consegue o mérito de ser uma comédia inteligente, cheia de verdades inconvenientes que muita gente reconhece em si mesma, ainda que nunca admita em voz alta. Renata Brás consegue separar o humor popular da televisão e abraçar um texto mais elaborado, mantendo o charme da comediante sem perder a profundidade dramática. O espectador sai do teatro sabendo que nunca mais vai olhar para o ciúme alheio com a mesma superficialidade de antes, e provavelmente vai dar uma olhadinha na própria vida amorosa para ver se não há um pouco daquela loucura escondida nos cantos da casa.

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