
Adaptado do romance homônimo de Asako Yuzuki, “O Hotel Ideal” (Watashi Ni Fusawashii Hoteru AKA The Hotel Of My Dream, 2024), dirigido por Yukihiko Tsutsumi, era pra ser um filme com altas doses de comédia… era!
Filmes sobre escritores sempre tropeçam no mesmo problema: ver alguém encarando uma página em branco não tem graça nenhuma. O máximo que acontece é uma frase aparecer no papel. Na maior parte do tempo, é só alguém empacado, esperando que alguma ideia decida cair do céu.
A trama se inicia no Hilltop Hotel, que (na vida real) desde 1954 no Japão, virou ponto de encontro de autores do pós-guerra. Editores circulavam pelo saguão como caçadores, esperando que os escritores trancados nos quartos acima finalmente entregassem alguma coisa.
Kayoko Nakajima (Non), também chamada de Aida Daiki, é uma novata que ganhou um prêmio, mas continua sem ver seu livro publicado. O motivo é simples: o veterano Higashijujo Munenori (Takito Kenichi) destruiu, com comentários, o manuscrito dela sem piedade.
Kayoko paga do próprio bolso para ficar no Hilltop Hotel, lugar reverenciado por autores que ela admira, e alimenta a fantasia de um dia ser digna daquele espaço. Com a ajuda de Endo Michio (Tanaka Kei), ex-colega de universidade, agora, editor de uma grande casa editorial, ela tenta subir na hierarquia literária usando talento e métodos pouco ortodoxos. Ela cai, levanta, cai de novo, e continua. O filme insiste que isso é inspirador, mas na prática, é só o retrato de alguém que se recusa a desistir.
Endo é o tipo de editor que apoia Kayoko quando convém, mas não hesita em puxar o tapete quando acha útil. Higashijujo, por outro lado, faz questão de ser o obstáculo principal, usando qualquer truque para mantê-la no chão. O confronto entre os dois é tratado como se fosse decisivo para o destino da literatura japonesa.
O elenco inclui figuras que orbitam diretamente esses personagens: uma gueixa do clube favorito de Higashijujo; uma romancista adolescente que rouba atenção; uma balconista obcecada por livros; a esposa de Higashijujo e sua filha – única pessoa capaz de desmontar o pai.
Todos esses personagens aparecem para reforçar o cenário de disputas, vaidades e jogos internos do mercado editorial. O filme tenta transformar a trajetória de Kayoko em uma história de ascensão, como se o esforço dela fosse capaz de romper um sistema que vive de hierarquia e conveniência. A pergunta final é óbvia: até onde essa escalada vai levar?
A fragilidade da trama aparece justamente quando o filme abandona de vez a observação pela escalada. Quanto mais a disputa cresce, mais reviravoltas surgem, e nenhuma delas aprofunda coisa alguma. O filme só recupera fôlego quando volta ao ponto que realmente importa: legitimidade não cai do céu, é construída, e quem fica fora dela acaba moldando o próprio comportamento para continuar sendo visto, mesmo que isso custe pedaços de si.
Irregular, “O Hotel Ideal” funciona melhor como retrato de controle cultural mascarado de comédia literária. As risadas existem, mas travam no meio do caminho — será que é exatamente isso que o filme quer?
















