
Quando um artista já tem décadas de estrada, fica fácil notar que seus trabalhos recentes são, no fundo, reciclagens mais ou menos sofisticadas do que ele já fez antes. Se isso soa como repetição preguiçosa ou como aprofundamento genuíno, depende do olhar — e, claro, do talento do artista.
No caso de Pedro Almodóvar, com 46 anos de carreira e 23 longas antes de “Natal Amargo” (Bitter Christmas AKA Amarga Navidad, 2026), ninguém em sã consciência vai questionar o talento. Então é natural que muita gente receba seu novo filme com entusiasmo, já que ele rearranja velhos temas, velhas obsessões e velhos truques numa colagem que, surpreendentemente, ainda consegue parecer nova.
A trama segue, mais um alter ego do diretor, Raúl (Leonardo Sbaraglia), mas principalmente suas criaturas ficcionais, Elsa (Bárbara Lennie) e seus círculos de amigos e amantes. Elsa é uma diretora de cinema relegada a comerciais de TV porque ninguém quer financiar seus “filmes cult” — uma ironia tão óbvia que quase dá para ouvir o diretor rindo atrás da câmera. Ela sofre com enxaquecas e crises de pânico, mas, claro, não consegue cuidar de si porque todo mundo ao redor a trata como terapeuta gratuita: luto, depressão, traições, abandono… o pacote completo.
No estilo típico de Almodóvar, a narrativa pula entre essas histórias, seus flashbacks e a vida de Raúl, que escreve tudo isso enquanto se alimenta das próprias tragédias pessoais. Parece complicado, mas o diretor navega por essa estrutura de bonecas russas com a mesma facilidade de quem já fez isso umas dez vezes — porque, bem, ele já fez.
Esse resumo já entrega o jogo: estamos no território mais almodovariano possível. A obsessão dos artistas por continuar criando (“Má Educação”, “Abraços Partidos”, “Dor e Glória”), o luto e suas feridas intermináveis (“Tudo Sobre Minha Mãe”, “Volver”, “Julieta”), a comunicação como cura (“Fale com Ela”, “Tudo Sobre Minha Mãe” de novo). E, claro, o tema que ele vem martelando com insistência: ajudar os outros é nobre, mas também é um inferno que consome quem tenta.
Em “Natal Amargo”, isso ganha uma camada nova: Elsa tenta ajudar, mas sempre deixa alguém de lado e quando não deixa, ultrapassa limites e machuca quem queria salvar. A narradora quer brincar de Deus, mas às vezes só está sendo invasiva — ou egoísta. E, em outros momentos, percebe que ficção não resolve nada, por mais que o autor queira acreditar que sim.
Os limites da ficção como cura — e o egoísmo de quem a cria — culminam numa cena perto do final que flerta perigosamente com o desastre tonal. Sem spoilers, basta dizer que é o tipo de jogada que poderia destruir o filme inteiro. Mas funciona porque Almodóvar se expõe de forma crua, quase se autoflagelando.
O tom mais leve do final não apaga a profundidade do que veio antes — e, mais importante, reafirma o desejo de Almodóvar de continuar contando histórias. Depois de “Natal Amargo”, fica difícil não esperar ansiosamente pelo próximo capítulo dessa longa, caótica e irresistível carreira.
















